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MACHADO
DE ASSIS
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Joaquim
Maria Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, na
quinta da viúva do Brigadeiro Bento Barroso, ministro e
senador do Império. Seu pai, Francisco de Assis, filho
de "Pardos Forros", isto é, de mulatos
liberto, era um simples dourador e pintor de paredes,
dado, porém a algumas leituras; a mãe, uma lavadeira açoriam;
ambos tinham sido agregados da quinta da viúva Barroso,
madrinha e protetora do menino. Joaquim Maria perdeu bem
cedo a mãe; porém a madrasta, Maria Inês, uma preta
extremamente carinhosa, continuou a ampara-lo, inclusive
na alfabetização. Mas a morte de Francisco de Assis
obrigou Maria Inês a empregar-se como doceira num colégio
em São Cristóvão, e Joaquim Maria, aos doze anos
ficou encarregado de vender louças. Parece, entretanto,
que captava fragmentos das aulas nos instantes de lazer,
lia muitos livros emprestados, e iniciava-se no francês
com os franceses do bairro imperial... Na sua adolescência
de pobre, circula de barca (naquele tempo, o sistema
carioca de transporte urbanos, muito mais sábio do que
o de hoje, utilizava abundantemente a via marítima),
entre São Cristóvão e os cais Pharoux, a fim de reforçar
seus magros vinténs com os serviços de coroinha da
igreja da Lampadosa. No Largo do Roça, "
Machadinho" descobre a livraria e tipografia de
Paula Brito. Generoso e inventivo, o mulato Paula Brito,
tradutor de folhetins publicava uma revista - A Marmota
Fluminense – onde colaboravam os tipos mais populares
do primeiro romantismo de segunda classe, como Teixeira
e Sousa e Macedo.
Em 1855 acolhido por Paula Brito, Machado
estreia como um poeta descabeladamente romântico, na
Marmota. No ano seguinte, entra como aprendiz de tipógrafo
na imprensa nacional, ganhando um salário de fome. Mal
nutrido e pior dormido, vivia lendo nas horas de
trabalho, até que o chefe da oficina foi queixar-se ao
diretor. Por sorte, este não era outro senão Manoel
Paula Brito e a reuniões de sua sociedade "lítero
– humorista", a petalogia e é levado pela mão
de Francisco Otaviano e do condoreiro Pedro Luís, para
a redação do correio mercantil. Paralelamente, procura
completar sua instrução básica ouvindo as lições do
curra da capela da Quinta da Boa Vista, de quem se
fizera amigo. Franzino, gago e tímido, enleado pela raça
e pela obscuridade de suas origens,
"Machadinho" trava não obstante relações
prestigiosas (o mais das vezes, como os literatos freqüentadores
da petalogia): Porto Alegre, Macedo, Gonçalves Dias, M.
A. de Almeida, Casimiro de Abreu e José de Alencar.
Em 1860, o relacionamento que o Diário do
Rio de Janeiro, órgão liberal dirigido por Saldanha
Marinho, abre-lhe as portas do alto jornalismo. O
redator chefe, seu amigo, Quintino Bocaiúva, convida-o
a resenhar os debates do senado e a exercer a crítica
teatral. Durante sete anos, Machado se revela, no Diário
um liberal combativo, afinado com todas as grandes
causas populares, o antimperialismo da Questão Christir
à campanha abolicionista. Pela mesma época, surgem
nele o crítico literário, o comediógrafo e o
contista, estes últimos bem românticos, bem a gosto do
tradutor de Hugo ( os trabalhadores do mar, Dickens e
Dumas filho. Aos vinte e oito anos, o escritor
festejado, jornalista de consideração, o molequinho do
livramento começa a afirmar-se na vida; vindo residir
no centro da cidade, deixa impiedosamente para trás
tudo o que ainda o prendia à humildade de suas raízes.
Uma nomeação para funcionário do Diário Oficial, lhe
traz o alívio econômico. Sua candidatura a deputado
chega a ser articulada, pouco antes de ser-lhe
conferida, o grau de cavaleiro, a condecoração da
Ordem da Rosa.
Finalmente, aos trinta anos, Machado
encontra a consorte ideal na pessoa de Carolina, irmã
de um amigo o poeta Português Faustino Xavier de
Novais. Mais velha do que o marido, cultivada e sensível,
Carolina contribuiu para orientar-lhes as leituras
revelando-lhe os clássicos ingleses e aumentando a sua
familiaridade com o português.
Em 1873, Machado, que acaba de sagrar-se
romancista (Ressurreição), é designado oficial da
Secretaria de Agricultura, inaugurando assim trinta e
cinco anos de uma carreira burocrática modelar, no
concurso da qual galgaria todos os níveis de promoção.
No mesmo ano, na capa do arquivo ilustrado, seu retrato
aparece ao lado do de Alencar, glória número um da
literatura nacional. Às vésperas dos quarenta, porém,
o escritor, desde a infância sujeito a crises epilépticas,
é obrigado a retirar-se para o Friburgo. A superação
dessa crise, que parece ter prece e precipitar uma
vigorosa evolução espiritual, lança Machado no apogeu
de suas forças criadoras, de que são frutos os contos
da maturidade (dos Papéis Avulsos a Pagina nas
recolhidas) e a tetralogia romanesca formada por Brás
Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó. É
também em torno de 1880 que principiam as saborosas crônicas
estampada na seção (a Semana) da Gazeta de Notícias.
A vida metódica do burguês self-meide,
leitor incansável, amigo fiel, correspondente em
cantador e conviva a fabilíssimo, patrocinador discreto
e simpático dos novos talentos literários, continua em
seu ritmo sereno, pontilhado de lições de alemão e
partida de gamão e xadrez, já agora no aprazível chalé
do Cosme Velho onde o casal sem filhos viveria até o
fim. Machado se torna a presença mais ilustre e acatada
de algumas rodas intelectuais: a da Gazeta, da livraria
Garnier (sua editora), a da revista brasileira, colocada
sob a direção de José Veríssimo. Em 1896, o grupo da
revista decide fundar a Academia Brasileira de Letras. A
presidência é, sem excitação, oferecida a Machado de
Assis. Com as barbas brancas disfarçando os lábios
grossos e o penteado sonegando os cabelos crespos, a
antigo "Machadinho" tinha então uma aparência
olímpica, encarnação simultânea da responsabilidade
vitoriana e da suprema excelência das letra brasileiras
("Mulato? – dirá seu querido Joaquim Nabuco –
só vi nele o grego!").
A ascensão social fora completa; a
biografia do nosso maior escritor reflete melhor que
todos os sentimentos sociológico do destino literário
na era pós-romântica – a conquista de status pelo
homem de classe média ou baixa e muito particularmente
pelo mestiço, convertido em profissional da pena.
Machado de Assis foi-se tornado aos poucos o intelectual
mais famoso do Rio de Janeiro. Como funcionário público,
foi exemplar; como escritor, o mais importante. A curva
da velhice foi para Machado o desdobramento de uma
apoteose, onde a única dissonância foi uma nota íntima:
as saudades invencíveis com o que lhe deixou a morte de
Carolina, quatro anos antes da arteriosclerose que o
levou no dia 29 de setembro de 1908 em meio à tristeza
profunda do país e da cidade. Por ter sido um escritor
que se formou à luz do Romantismo, e que evoluiu para o
Realismo com o tempo, a obra de Machado de Assis forçosamente
é enxergada sob os dois pontos de vista – romântico
e realista. Pode-se considerar que sua produção até
1880 seja autenticamente romântica, embora o seu
romantismo não seja tão sentimentalista como o de seus
contemporâneos.
2.2.
Fases de sua ficção;
Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas
fases distintas: a primeira apresenta o autor ainda
preso a princípios da escola romântica, sendo por isso
chamada fase romântica ou de amadurecimento; a segunda
mostra o autor mais definido em relação ao ideal
realista, sendo, portanto, chamada fase realista ou de
maturidade. A publicação de Memória Póstumas de Brás
Cubas inaugura a segunda fase da obra machadiana.
Primeira
fase:
A
fase romântica:
Entre 1872 e 1878, Machado de Assis começa
a publicar romances. Ainda muito influenciado pelo amigo
e mestre José de Alencar, publica, com regularidade
britânica, um romance a cada dois anos. Em Ressurreição
(1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá
Garcia (1878), temos um Machado ainda romântico, mas
antecipando alguns temas e procedimentos de suas
obras-primas realistas e, principalmente, conquistando
um público leitor que já receberia sua revolução
realista com boa vontade.
Escreveu ainda em sua fase romântica os
livros de contos: Histórias de meia-noite e Contos
fluminenses. Analisando os romances e os contos
machadianos considerados românticos, vê-se que já
apresentam a característica que há de marcar Machado
de Assis: os acontecimentos são narrados sem precipitação,
entremeados de explicações aos leitores por parte do
narrador, cheios de considerações sobre os
comportamentos. Suas personagens não são tão lineares
como as dos maiores românticos: elas têm
comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não
transparentes, são interesseiras. Mas a estrutura
narrativa de Machado ainda é linear, isto é, as
narrativas têm começo, meio e fim demarcados.
Segunda
fase:
A
fase realista:
Com a publicação de Memórias póstumas
de Brás Cubas, Machado de Assis mudou o rumo de sua
obra, Amadureceu como escritor, passando a escrever para
leitores mais maduros. Era a hora de personagens mais
elaboradas, construídas à luz da psicologia. Era também
a hora da técnica de composição do romance: capítulos
curtos, frases curtas, contato com o leitor. Uma análise
apurada da sociedade brasileira no fim do Segundo Império;
o casamento seria o alvo predileto da interpretação
machadiana. Dentro deste, é sobre a mulher que recai a
finura da investigação do escritor. As estruturas
narrativas das obras desta fase fogem à linearidade,
entremeando digressões temporais, intromissões do
narrador e grande preocupação com a análise dos
acontecimentos. São romances do cicio realista: Memórias
póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro,
Esaú e Jacó, Memorial de Aires. E os
livros de contos: Histórias sem data, Várias histórias,
Papéis avulsos, Páginas recolhidas, Relíquias da casa
velha. Essa foi a mais importante fase da carreira de
Machado de Assis onde concentra-se na trilogia de
romances realistas publicados no final do século. O
primeiro deles foi Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1881). Depois, seguiram-se: - Quincas Borba (1891)
narra, na terceira pessoa, as desventuras do ingênuo
Rubião, herdeiro da fortuna e do cachorro da
enlouquecida personagem Quincas Borba, que já aparecia,
e morria, no livro anterior. Através dessa personagem,
cômica no seu despreparo para as armadilhas da corte, e
trágica no seu destino, Machado ao mesmo tempo ironiza
e demonstra as teorias darwinistas tão caras aos
naturalistas. O ensandecido "humanitismo" de
Quincas Borba, herdeiro direto da "luta pela
vida" de Darwin, é sintetizado na frase "Ao
vencedor, as batatas!", e acaba por ser comprovado
tragicamente pela ação espoliadora do casal Sofia /
Palha sobre o provinciano protagonista. - Dom Casmurro
(1899) apresenta algumas das personagens mais complexas
da literatura universal. Narrado pelo velho Bento
Santiago, apelidado Dom Casmurro, apresenta a história
de seu relacionamento - namoro, casamento e afastamento
- com Capitu, sua vizinha de infância.
O narrador se esforça por demonstrar o caráter
ambíguo e dissimulado tanto de sua esposa quanto de seu
melhor amigo, o hábil Escobar, para assim justificar
sua convicção de ter sido por eles traído. Como prova
da traição, apresenta a semelhança que enxerga em seu
filho, Ezequiel, com o amigo, que supõe pai da criança.
Mas o esforço é vão. Se consegue construir a imagem
de personagens extremamente complexos, nada nos consegue
provar, pois o seu próprio caráter é tão fraco, tão
inseguro e titubiante, que o leitor passa a desconfiar
de seus julgamentos. Assim, além de construir a eterna
dúvida (Capitu traiu ou não Bentinho?).
Machado de Assis apresenta o primeiro
narrador não confiável da literatura brasileira. - Esaú
e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), têm o mesmo
narrador personagem, o conselheiro Aires, que pouco age
e passa a maior parte da narrativa contemplando
placidamente as aventuras amorosas e existenciais dos
jovens ao seu redor. A descrição dos dias de
perplexidade da população carioca com a proclamação
da República, em Esaú e Jacó, é um dos pontos altos
da narrativa machadiana. Além desses romances realistas
Machado de Assis também escreveu em sua fase romântica
os livros de contos: Histórias sem data, Várias histórias,
Papéis avulsos, Páginas recolhidas, Relíquias da casa
velha. 2.3. Características. 2.3.1. Gerais; Através de
seus contos, Machado afirma-se como grande contador de
história; dá ao leitor não só a sensação de estar
lendo, mas de estar participando; ele não descreve, ele
mostra e fala.
Um recurso também muito utilizado pelo
autor é a surpresa: ele prende a atenção do leitor
porque o surpreende a cada instante, seja na maneira de
iniciar o conto, seja através de idéias inesperadas ou
pelo modo como conduz a narrativa. Embora tenha se
interessado por mais de uma escola literária, Machado
soube manter-se numa posição equilibrada entre o
romantismo e o realismo, sem fixar-se rigidamente em
determinada corrente. Não copiava a vida, mas servia-se
da realidade, transfigurada pela imaginação. Seu
interesse dominante é pelo homem, pelo espírito
humano, a cuja sondagem dedicou sua arte.
O pessimismo é uma constante em sua obra;
para ele o homem é irremediavelmente corrompido, egoísta,
vítima da ingratidão, da maldade, do ódio. Isto se
faz notar através do ceticismo do escritor, em face dos
sofrimentos da humanidade, nada generoso ao julgar a
vida e os homens. O poeta Machado de Assis iniciou sua
carreira literária como poeta. Seu livro de estréia
foi Crisálidas (1864), que lhe conferiu imediata
notoriedade. Embora sua poesia esteja muito aquém da
prosa que o imortalizou, nunca deixou de escrever
poemas. Em 1870 lança Falenas, em 1875, Americanas e,
em 1901, as suas Poesias Completas, que ainda não
incluem um dos seus mais famosos poemas, o belo soneto A
Carolina, escrito após a morte da esposa, em 1904. O
cronista Seguindo a linha dos textos de Ao Correr da
Pena, de José de Alencar, Machado de Assis contribuiu
durante toda a sua carreira com textos breves para
jornais, em que comenta os mais variados assuntos da
vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves,
de temática cotidiana, podem ser considerados os
precursores da crônica moderna, em que se haveriam de
destacar, no século seguinte, escritores como Rubem
Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
A produção do Machado cronista se inicia
já em 1859 e se estende até 1904, com raras interrupções.
Sua produção mais madura foi publicada na colunas do
jornal Gazeta de Notícias, em que contribui de 1881 a
1904: Balas de Estalo (1883-1885), Bons Dias!
(1888-1889) e principalmente em A Semana (1892-1897). O
crítico Também para os jornais, Machado de Assis
escreveu durante toda a vida textos críticos. Sua produção
infindável envolve ensaios teóricos, como O passado, o
presente e o futuro da nossa literatura (1858), O ideal
do crítico (1865) e Notícia da atual literatura
brasileira - instinto de nacionalidade (1873), diversas
resenhas críticas importantes, como aquela ao livro O
Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878) e inúmeras
críticas de teatro. O contista Muitos das centenas de
contos que Machado de Assis escreveu ao longo da vida se
perderam, com o desaparecimento dos números dos jornais
em que foram publicados.
Outros estão apenas agora sendo
republicados em livro. Sua versatilidade como contista
é imensa. Escreveu tanto para os jornais mais
sentimentalóides quanto para publicações seríssimas.
A qualidade dos contos varia de acordo com a publicação
e o público leitor a que se destinavam. Entre as coletâneas
de contos que publicou, destacam-se Papéis Avulsos
(1882), com o grande conto, ou novela, O Alienista,
Teoria do Medalhão e O Espelho, e Várias Histórias
(1896) em que se encontram, entre outras obras-primas da
concisão e do impacto narrativo, A Causa Secreta, A
Cartomante e Um Homem Célebre. 2.3.2. Quanto aos
personagens; Os personagens de Machado de Assis trazem
certo toque diferente, não se enquadram na maniqueísta
visão romântica de bem x mal. Mostram algo
desconhecido na literatura do Brasil até o momento –
seres dotados de vida interior, com característica próprias
e individualizantes, que contrariam conceito fechado de
herói. Suas personagens não são tão lineares como as
dos maiores românticos.
Tratam-se de seres complexos, com altos e
baixos, defeitos e virtudes, caprichos e incoerência ,
têm comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não
transparentes, são interesseiros. Os caracteres
machadianos têm de inovador o fato de o escritor está
preocupado com o homem concebido como ser universal,
que, somente por causalidade, é brasileiro. 2.3.3.
Quanto ao processo narrativo. As obras iniciais obedecem
à estrutura romântica, preocupadas em narrar uma história
geralmente linear, com começo, meio e fim e tendo o
amor como centro das atenções. Analisando os romances
e os contos machadianos considerados românticos, vê-se
que já apresentam a característica que há de marcar
Machado de Assis: os acontecimentos são narrados sem
precipitação, entremeados de explicações aos
leitores por parte do narrador, cheios de considerações
sobre os comportamentos.
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