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ALMEIDA GARRETT
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João Baptista
da Silva Leitão de Almeida Garrett, visconde de Almeida
Garrett, escritor romântico, orador, par do reino, ministro
e secretário de Estado honorário português (Porto, 4 de
Fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de Dezembro de 1854).
Filho de António Bernardo da Silva Garrett e Ana Augusta de
Almeida Leitão, o escritor passou parte da infância em
Portugal continental, mas teve de seguir para os Açores
(Angra do Heroísmo) quando as tropas francesas de Napoleão
Bonaparte invadiram Portugal. Nos Açores foi instruído pelo
tio, Dom Alexandre, bispo de Angra. Em 1818 seguiu para
Coimbra, onde se matriculou no curso de Direito. Ainda em
1818 publicou O Retrato de Vênus, trabalho que lhe custou um
processo por ser considerado "materialista, ateu e imoral".
Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o
exílio na Inglaterra em 1823, após a Vilafrancada. Antes
havia casado com Luísa Midosi, de apenas 14 anos. Foi em
Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico,
descobrindo Shakespeare, Walter Scott e outros autores e
visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias
góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior.
Em 1824, seguiu para França, onde escreveu Camões (1825) e
Dona Branca (1826), poemas geralmente considerados como as
primeiras obras da literatura romântica em Portugal. Em 1826
foi anistiado e regressou à pátria com os últimos emigrados,
mas teria de deixar Portugal novamente em 1828, com o
regresso do Rei absolutista D. Miguel. Ainda nesse ano
perdeu a filha recém-nascida. Novamente em Inglaterra,
publica Adozinda (1828) e Catão (1828).
Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim António de
Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo em 1832. A
vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em
Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e
encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder.
Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos
anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Foram
de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte
Dramática, da Inspeção-Geral dos Teatros, do Panteão
Nacional e do Teatro Normal (atualmente Teatro Nacional D.
Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro,
Garrett procurou sobretudo renovar a produção dramática
nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro. Em
1838, leva à cena Gil Vicente, pouco depois D. Filipa de
Vilhena e, em 1842, O Alfageme de Santarém, todas sobre
temas da história de Portugal. Em 1844 é publicada a sua
obra-prima, Frei Luís de Sousa, que um crítico alemão, Otto
Antscherl, considerou a "obra mais brilhante que o teatro
romântico produziu". Estas peças marcam uma viragem na
literatura portuguesa não só na seleção dos temas, que
privilegiam a história nacional em vez da antiguidade
clássica, como sobretudo na liberdade da ação e na
naturalidade dos diálogos.
Em 1843, Garrett publica o Romanceiro e o Cancioneiro Geral,
coletâneas de poesias populares portuguesas, e em 1845 o
primeiro volume d'O Arco de Santana (o segundo apareceria em
1850), romance histórico inspirado pelo Notre Dame de Paris
de Victor Hugo; esta obra seduz não só pela recriação do
ambiente medieval do Porto, mas sobretudo pela qualidade da
prosa, desespartilhada das convenções anteriores e muito
mais próxima da linguagem falada. A obra que se lhe seguiu
deu expressão ainda mais vigorosa a estas tendências:
Viagens na minha terra, livro híbrido em que impressões de
viagem, de arte, paisagens e costumes se entrelaçam com uma
novela romântica sobre fatos contemporâneos do autor e
ocorridos na proximidade dos lugares descritos (outra
inovação para a época, em que predominava o romance
histórico). A naturalidade da narrativa disfarça a
complexidade da estrutura desta obra, em que alternam e se
entrecruzam situações discursivas, estilos, narradores e
temas muito diversos.
Na poesia, Garrett não foi menos inovador. As duas
coletâneas publicadas na última fase da sua vida (Flores sem
fruto, de 1844, e sobretudo Folhas caídas, de 1853)
introduziram uma espontaneidade e uma simplicidade
praticamente desconhecidas na poesia portuguesa anterior. Ao
lado de poemas de exaltada expressão pessoal surgem pequenas
obras-primas de singeleza ímpar como "Pescador da barca
bela", próximas da poesia popular quando não das cantigas
medievais; a liberdade da metrificação, o vocabulário
corrente, o ritmo e a pontuação carregados de subjetividade
são as principais marcas destas obras.
A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra.
Revolucionário nos anos 20 e 30, distinguiu-se
posteriormente sobretudo como o tipo perfeito do dandy, ou
janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos
salões mundanos. Separado da esposa, passa a viver em
mancebia com D. Adelaide Pastor até à morte desta em 1841. A
partir de 1846, a sua musa é a viscondessa da Luz, Rosa
Montufar Infante, inspiradora dos arroubos românticos das
Folhas caídas. Em 1851, Garrett é feito visconde de Almeida
Garrett em duas vidas, e em 1852 sobraça, por poucos dias, a
pasta dos Negócios Estrangeiros em governo presidido pelo
Duque de Saldanha. Faleceu de cancro em 1854.
No século XIX e em boa parte do século XX, a obra literária
de Garrett era geralmente tida como uma das mais geniais da
língua, inferior apenas à de Camões. A crítica do século XX
(notavelmente João Gaspar Simões) veio questionar esta
apreciação, assinalando os aspectos mais fracos da produção
garrettiana. No entanto, a sua obra conservará para sempre o
seu lugar na história da literatura portuguesa, pelas
inovações que a ela trouxe e que abriram novos rumos aos
autores que se lhe seguiram. Garrett, até pelo acentuado
individualismo que atravessa toda a sua obra, merece ser
considerado o autor mais representativo do romantismo em
Portugal.
Obras de Almeida Garrett
(primeiras edições):
1) TEXTOS
"O
Retrato de Vénus", Coimbra, 1821;
"O Toucador", 1822; "O Cronista", 1827 - procura
reagir contra a falta de ar livre, de larga
convivência e expansão cultural da mulher
portuguesa;
"Catão", Lisboa, 1822, Londres, 1830, Lisboa, 1840
(outra publicação em 1845);
"Camões", Paris, 1825 (outras edições em vida de
Garrett: 1839, 1844, 1854);
"Adozinda", Londres, 1828;
"Lírica de João Mínimo", Londres, 1829; Lisboa,
1853;
"O tratado "Da Educação", Londres, 1829;
" Um Auto de Gil Vicente", Lisboa, 1841;
"O Alfageme de Santarém", Lisboa, 1842;
"Romanceiro e Cancioneiro Geral" - tomo 1 (1843);
tomo 2 e 3 (1851);
"Frei Luís da Sousa", Lisboa, 1843;
"Flores sem fruto", Lisboa, 1845;
"O Arco de Sant'Ana", I, Lisboa, 1845; II, 1850;
"D. Filipa de Vilhena", Lisboa, 1840;
"Viagens na Minha Terra", Lisboa, 1846;
"As profecias do Bandarra", Lisboa, 1848;
"Um Noivado no Dafundo", Lisboa, 1848;
"A sobrinha do Marquês", Lisboa, 1848 (é uma comédia
que evoca a crise social na época pombalina);
"Memórias Históricas de José Xavier Mouzinho da
Silveira", Lisboa, 1849;
"Folhas Caídas", 1853;
"Fábulas e Folhas Caídas", 1853;
"Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas",
1871;
"O Roubo das Sabinas", ed. crítica, introdução e
notas de Augusto da Costa Dias, 1968 de um poema
inédito da juventude;
"Cartas de amor à viscondessa da Luz", coordenação e
notas de J. Bruno Carreiro, Lisboa, s/d.;
"Portugal na Balança da Europa", 1830;
"Dona Branca" , Paris, 1826;
Primeiras
experiências dramáticas:
"Lucrécia",
representada em 1819;
"Mérope" que esteve prestes a subir ao palco e foi
publicada em 1841;
"Afonso de Albuquerque";
Publicação de artigos no jornal "O Português
Constitucional";
"Helena" - novela de tema
brasileiro
e intenção social; foi a última obra realizada por
Garrett, antes da sua morte;
2) ANTOLOGIAS
"Doutrinas de Estética Literária", prefácio e notas
de Agostinho da Silva, colecção «Textos Literários»;
"Camões e D.Branca e Folhas Caídas e outros poemas",
introdução, selecção e notas de António José
Saraiva, colecção «Clássicos Portugueses»;
"Discursos Parlamentares", introdução de Manuel
Mendes, colecção «Saber»;
"Poesias", selecção e apresentação por João Gaspar
Simões, Porto, 1954;
"Romanceiro", introdução e selecção e notas de A.
Prado Coelho, Lisboa, 1962;
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