Será que realmente você vê?
Por Alesson
Vinícius
Todos nós nascemos
lúcidos, mas ao passar o tempo ficamos cegos.
Sendo que poucos conseguem deixar de seguir estar regra, afinal
todas as regras possuem exceções. Poucos conseguem continuar
como quando criança, vê as coisas e reparar.
Esta afirmação
pode ser contraditória para alguns que se baseiam em ideais
empiristas ou kantianos, mas esta afirmação consiste-se não na
acumulação de conhecimento e sim na utilização crítica e
observadora do mesmo. Para exemplificar o que eu estou
dissertando observemos a passagem abaixo contida no maravilhoso
livro “O Mundo de Sofia”:
“... um coelho
branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de
um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para
acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pêlos
do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a
impossibilidade dos números de mágica a que assistem. Mas
conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais
para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo
é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos
finos pêlos, lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se
lançar nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da
existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se
agarram com força aos pêlos dos coelhos e berram para as pessoas
que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga
de comida e bebida.
- Senhoras e senhores - gritam
eles-, estamos flutuando no espaço!.
Mas nenhuma das
pessoas lá de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos.
- Que droga! Que
caras mais barulhentos - elas dizem”
A partir desta passagem podemos
observar a cegueira na qual assombra a todos nós, à medida que
vamos envelhecendo. Deixamos de vê os fatos
dialeticamente, ou seja, como contraditórios e passiveis a
mudança e passamos a olhá-los como prontos e originados
do “nada”, um fenômeno chamado de reificação.
Por diferentes motivos, as pessoas são absorvidas pelo
cotidiano, que a admiração pela vida, pelo novo, acaba sendo
reprimida. Já as crianças vêem o mundo como uma coisa nova; algo
que desperta admiração e curiosidade para ser investigado (mesmo
que inocentemente), ao contrário de seus pais que o olham como
se fosse absolutamente normal.
Este processo de
“cegueira” gera uma sociedade estúpida e alienada, onde todos os
seus conceitos estão alicerçados na história contada na escola
fundamental, ou seja, o conhecimento mastigado e manipulado que
é cuspido para as crianças. A partir daí e de outros fatos (que
trataremos a seguir) a criança via “cegando”. Uma afirmação
saramagueana é interessantíssima “o medo nos cega”, a
partir disso é adicionado à ignorância e o medo da pessoa de
sair dela, afinal quanto mais a gente sabe, mais as nossas
certezas morais vão por terra. Este mesmo “medo” serve para uma
ideologia cruel que atua sobre o povo, que se conforma com pouco
(o nada) em suas vidas. Quando “lúcidos”, ou seja, os
indivíduos dos quais vivem e admiram o mundo e vêem-no
dialeticamente, reparando-o, os mesmo são banidos de sua
sociedade ou fazem parte da elite (neste caso a mudança
proporcionada é quantitativa).
A informação maquilada
e descaradamente cínica dos jornais e revistas de nada servem
para o povo, pelo contrário, é um conteúdo pernicioso e
ideológico que implanta na mente do leitor uma mentira. Tomemos
como exemplo a revista “VEJA”, cujo conteúdo é
essencialmente burguês e ideológico, que serve para manter os
poderosos e massacrar o povo. Uma reportagem muito
“interessante” feita por esta revista foi acerca das cotas,
quando afirmava dados absurdos onde a população negra do Brasil
(detentor da segunda maior população negra do mundo)
representava simplesmente 5,9% da população. Reportagens
como estas e outras quando não são vistas e apenas
olhadas, são transmitidas como verdadeiras daí a necessidade
de termos olhos “acordados” enquanto os outros dormem. Um verso
interessante é de Renato Russo: “Estou acordado e todos dormem/
todos dormem todos dormem/ Agora vejo em parte. Mas então
veremos face a face.”
Pergunta-se: “Como posso
saber se não estou acorrentado à ignorância, se estou cego?”.
Uma resposta precisa para isso é dada através de como você
analisa os fatos, mas para manter-se na ponta fina dos pêlos do
coelho é necessário o conhecimento crítico das coisas, passar a
enxergá-las com espírito cientifico.
A forma como nos
tornamos cegos é muito interessante: na nossa infância
determinadas brincadeiras inocentes nos ensinam a “aprender a
obedecer”. Observe as letras das brincadeiras que executávamos
quando criança é um conteúdo altamente subliminar e pernicioso
àquela criança. Exemplo: “... Faz o que eu mando? Faço. Se não
fizer, toma bolo”. Punição!!
A partir destas
inocentes atitudes, a criança começa a perder a lucidez,
torna-se facilmente alienável e submissa a ordens. Por isso não
há outra forma de podermos ver se não fecharmos os olhos e mudar
a nós mesmos e logo após percebermos e atuarmos na mudança da
vida. Enganados estão aqueles cujo pensamento é antidialético e
afirmam a estagnação das coisas, pois mesmo as mais ínfimas,
estão em constante mudança. Fica ao leitor uma passagem do
crítico e emocionante romance Triste fim de Policarpo
Quaresma do injustiçado, embora genial Lima
Barreto:
“Saiu e andou. Olhou o céu, os
ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas
terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos
chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil
inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares,
as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes
passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda
parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do
campo... Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Que fora
aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes
modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no
clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao
encontro de Ricardo Coração dos Outros.”
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