A garfe da
federal e a defesa do mestre
Por Alesson Vinícius
“As
condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou
necessariamente compreendido-conheço−as muito bem. Para
suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma
integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar
acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície
política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado
indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou
prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para
questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o
proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência
de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos
para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até
agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em
grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo...
Auto−reverência, amor−próprio, absoluta liberdade para
consigo...
Muito bem!
Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus
leitores predestinados: que importância tem o resto? – O
resto é somente a humanidade. – É preciso tornar−se superior à
humanidade em poder, em grandeza de alma – em
desprezo...”.
(Nietzsche)
Imersa em
um profundo caos educacional e, ainda assim, gabando-se de seu
“excelente” ensino, a Universidade Federal da Bahia cometeu uma
garfe, ou melhor, uma extrema ofensa preconceituosa ao filósofo
Nietzsche.
Para não falar muito do seu estúpido, incongruente e obsoleto
vestibular, vou me deter apenas a esse absurdo ocorrido na
primeira fase do vestibular 2006.1 ocorrido no final de semana
anterior.
Em uma das suas questões a UFBA comete um equívoco infantil
concernente à filosofia nietzscheana e seu além-homem (e não
super-homem como muitos, inclusive a UFBA, pensa ser).A questão
dizia o seguinte:
Para defender o tão visceral e importante filósofo
utilizar-me-ei das palavras da filósofa Marilena Chauí: “Apoiada
na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã, em sua
teoria da Vontade de Potência e no seu elogio do super-homem,
desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista, de tal
forma que se passou a ver no autor de Assim falou Zaratustra um
precursor do nazismo. A principal responsável por essa
deformação foi sua irmã Elisabeth, que, ao assegurar a difusão
de seu pensamento tentou coloca-lo a serviço do
nacional-socialismo (partido de Hitler). Elisabeth reuniu
arbitrariamente notas e rascunhos do irmão, fazendo publicar
Vontade de Potência como a última e a mais representativa das
obras de Nietzsche, retendo até 1908 Ecce Hommo, escrita em
1888. Esta obra constitui uma interpretação de sua própria
filosofia, que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo
germânicos. Ambos foram combatidos pelo filósofo,desde sua
participação na guerra franco-prussiana(1870/1871);”
Como
foi que a UFBA pode transmitir essa idéia tendo em seu conselho
docente, mestre, doutores e estudiosos do filósofo. Com essa
questão absurda a UFBA faz com que os jovens, já tão alienados e
pasteurizados, nem pensem em pegar um livro de Nietzsche já que
uma “instituição de respeito e qualidade” considera como
verdadeira o pensamento nazista de Nietzsche.
Para que possamos compreender corretamente as idéias
políticas de Nietzsche, é necessário, portanto, purifica-lo de
todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome.
Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um
antitotalitário. “A democracia é a forma histórica da decadência
do Estado”, afirmou Nietzsche, que entendia por decadência tudo
aquilo que escravizava o pensamento, sobretudo um Estado que
pensa em si ao invés de pensar na cultura.
Respeito e considero extremamente a nossa (para os baianos)
Universidade Federal, contudo cuspir na filosofia de Nietzsche
desse modo ofende aos seus curiosos leitores.
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