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A literatura MULHER
Por Alesson Vinícius

   Entre as minhas insanas e insólitas leituras de minha existência absurda, deparei-me com a “literatura feminina”. Digo “feminina” por ter como tema principal a mulher, suas angústias, dores, desejos, enfim sentimentos.
   Dois livros extraordinários fizeram com que eu desse um profundo mergulho na existência feminina e conhecesse um pouco sobre este universo tão misterioso, interessante e indecifrável que é a mulher.
   Uma dupla e simultânea leitura amadureçam o meu intelecto e fizeram com que eu percebesse que não são beijos, dinheiro ou sexo que satisfazem a mulher, mas simplesmente a paixão, o amor.
   Começando por Madame Bovary de Flaubert, percebi que a personagem principal, Emma, tenta em todo o romance encontrar a tal felicidade que ela via nos seus livros. Com uma linguagem extremamente filosófica, contudo simples e humorística, Flaubert vai construindo a sua narrativa através da linguagem, ou seja, ela por si só faz-se e nos dá imagens para que possamos solidificá-las em nossa mente.
   Emma é uma mulher que se casa com um médico, Carlos, sentindo-se feliz com aquele rápido casamento. Em poucos dias ela percebe que nada que ela queria antes do casamento ela poderia ter. Carlos, seu esposo, dedicava-se extremamente à ciência tratando de seus pacientes, deixando Emma em casa entediada com os livros e o crochê. Em virtude disso Emma o trai e é a partir dessa traição que o romance inicia a explicitar o poder de uma mulher quando não está satisfeita, quando não lhe é proporcionado o prazer.
   Emma é cínica, perspicaz, mas antes tudo MULHER. Tudo que ela faz é em nome de seu desejo de ser mulher, sentir prazer, ser feliz.
   A leitura deste romance foi mais prazerosa ainda, porque simultaneamente eu estava lendo Aprendizagem ou O livro dos Prazeres da existencialista Clarice Lispector. O livro dos prazeres é um livro angustiante, pois nos prendemos aos sentimentos de Lóri, uma professora do primário que deseja um professor de filosofia (Ulisses), este decide ensiná-la as formas de amar e ter prazer e como se livrar da dor ao qual angustiava tanto Lóri.
   Clarice Lispector faz de forma genial uma construção existencialista da personagem principal, a sua relação com os objetos (seres em si) e os seus pensamentos esperançosos, cheios de vontade, amor e desejo. O final é brilhante com a contemplação do prazer devido ao aprendizado de Lóri.Clarice termina o romance com “:” para que possamos imaginar como seria a continuação das vidas de Lóri e Ulisses depois de eles terem se tornado um só e descoberto o prazer.
   Estas duas personagens, Emma e Lóri, ensinaram-me a olhar a mulher com um olhar ainda mais profundo e amoroso que eu já tinha.
   Percebi que as duas personagens buscam explicitar o perturbador desejo de amar com alguém e quando não encontram “oficialmente”, como no caso de Emma, procuram um outro.
   Eu procurava este tema na literatura há muito tempo, estava um pouco cansado de ver os desejos dos homens, de matar uma velhinha usurária ou então de matar um árabe por causa do sol, queria sentir as ânsias e satisfações femininas. Esta experiência corrobora a idéia de que o meu ser e meu intelecto devem-se extremamente a literatura e não apenas a filosofia ou as outras ciências, pois a literatura através da linguagem vai fundo na nossa existência e nos faz deliberar acerca do que pensamos, sentimos e fazemos.

 
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