Céline: O escritor maldito
Por Alesson Vinícius
“Céline é o
melhor escritor francês do século XX, sem dúvida alguma”
Quando eu
ouvir estas palavras do francês, sinceramente, eu fique
extremamente pasmo,surpreendido.Quando eu o indaguei sobre qual
seria para ele o melhor escritor francês, eu esperava que ele me
dissesse Camus,Sartre,Proust,Balzac ou outros,mas ele me
surpreende com um nome absolutamente desconhecido para a minha
pessoa:Louis Ferdinand Céline.
O francês foi absolutamente categórico:”Céline escreve com
sem embelezamento lexical ou qualquer outro tipo de complexidade
narrativa como faz Proust”.
Depois disso me foi indicado o livro do “tal” Céline,após
isso aquele nome “Viagem ao fim da noite”(Voyage au bout de la
nuit) começou a ser como um espeto em minha mente. Decidir então
comprar o tal livro e ver se o “cara” era tão bom assim.
Quando eu comecei a ler Viagem ao fim da noite estava
ansioso para saber por qual motivo o tal francês havia me dito
aquilo.
Foram necessárias apenas seis páginas para entender.O romance
narra a história de um estudante parisiense,anti-patriota e
anarquista.Logo no início,este parte para a guerra totalmente
iludido e após um dia todo aquele patriotismo se apaga e ele
começa a ver a vida em si.
“Quanto
tempo teria de durar o delírio deles, para que finalmente
parassem esgotados, esses monstros? Quanto tempo um acesso como
aquele pode durar?Meses?Anos?Quantos? Talvez até a morte de
todos,de todo os loucos?Até o último? E já que os acontecimentos
tomavam esse cariz desesperado,resolvi arriscar tudo..,
eu,sozinho,parar a guerra! Pelo menos naquele canto onde eu
estava”
O
romance é construído,ou talvez, desconstruído de forma crítica e
vulgar.Não encontramos a chatice narrativa de um Machado e seus
deuses gregos, o que vemos é um escritor que utiliza-se da
literatura,instrumento maior da palavra, para narrar a sua
própria, afinal o personagem principal Ferdinand Bardamu é, sem
dúvida, Céline romanceado.
Céline nasceu em 27 de maior de 1894 em Coubervoie e morreu
em 1961.Foi um escritor francês e um médico. Nascido em uma
família pobre, recebe uma instrução sumária antes de ir para o
exército francês em 1912.Junta-se ao 12º regime cuirassiers.
O seu regimento participa nos combates da primeira Guerra
Mundial. Para ter realizado uma rota arriscada no setor de
Poelkapelle (FLANDRES Ocidental), no curso da qual é ferido ao
braço direito, será decorado da Medalha militar, seguidamente da
Cruz de guerra com estrela de dinheiro. O seu pensamento
niilista é marcado de acentos heróicos-comicos e épicos
preenchido de uma força e uma vivacidade inconcebíveis. Esta
experiência desempenhará um papel decisivo na formação do seu
pacifismo e o seu pessimismo. Desde a sua morte,em 1961, Céline
é visto como um escritor maldito, esta denominação não advém de
sua literatura(apesar de também ter sido devido ao seu conteúdo
extremamente seco),mas advém de seu pensamento.Céline era
anti-semita, publicava panfletos anti-semita e isso fez com que
criasse uma legião de inimigos que julgasse a sua arte algo
descartável.Infelizes intelectualóides que não sabem ver além.É
claro que não devemos inocenta-lo,mas como diz Phillip Roth(um
judeu): “Mesmo se seu anti-semitismo o torna um ser abjeto,
intolerável,trata-se de um grande escritor- para lê-lo,
porém,devo deixar em suspenso minha consciência judaica.Céline é
um grande libertador: sinto-me chamado por sua voz.
A leitura de Viagem ao fim da noite é extremamente
fácil,seca e prazerosa.Foram vários risos,exclamações e
reflexões feitas por mim diante de um monumento literário
célineano.A obra nos faz viajar ao âmago da vida,como ela,sem
subterfúgios hipócritas e idealísticos, por isso o romance se
chama Viagem ao fim da noite,pois a vida nada mais é que
uma eterna noite em que o homem vaga vazio,sem substância,sem
nada.Apenas como ele é e o que faz.
No plano estilístico, a progressão que aparece entre o seu
primeiro romance e seu final é marcada por uma correspondência
cada vez mais nítida entre o tempo considerar (ou tempos da
ação) e o tempo narração (ou tempos da escrita). É assim que o
presente narrador invade o espaço romanesco ao ponto que a ação
não parece mais desenrolar-se no passado, mas pelo contrário ao
mesmo momento onde narrador escreve. O texto aproxima-se assim
progressivamente como a crónica que dá ao seu leitor a impressão
que os acontecimentos desenrolam-se "ao vivo", sob os seus
olhos.
Ainda há muitos autores geniais para eu conhecer como
Proust(eu ainda vou conseguir ler “No caminho de Swann”),Tolstói,Balzac
e outros,mas sem dúvida Céline deixou-me sua idiossincrasia
literária marcada em mim,pois nenhum outro autor arquiteta uma
obra da forma como Céline a fez em “Viagem ao fim da Noite”.Não
é de ficar surpreso que escritores mais conhecidos e,não menos
geniais,como Camus,Sartre,Henry
Miller, tido como seu mais fiel discípulo, William Burroughs,
Philip Roth, Milan Kundera.
O fotógrafo francês e Céline me ensinaram uma coisa: apesar
desta pasteurização literária que ocorre hoje, com tantos livros
espirituais e inteiramente oco, há ainda coisas geniais a serem
descobertas e sentidas.Ao fechar a última página do
livro,senti-me uma outra pessoa.Isso é literatura,refletir sobre
si mesmo e ,por conseguinte sobre o ser humano,construir
idéias,a cada página que se sucede. As últimas palavras deste
texto não serão minhas, mas sim de um outro genial admirador de
Céline, Lev Trotski:
“De capítulo em capítulo, de página em página, fragmentos
de vida se juntam num absurdo imundo, sangrento e digno de um
pesadelo.uma visão passiva diante do mundo com uma sensibilidade
à flor da pele,sem desejo de futuro.É esse o fundamento do
desespero - um desespero sincero que se debate com o seu próprio
cinismo”
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