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O CONHECIMENTO A UM CLICK DE VOCÊ!

 


A indústria cultural

A existência de meios de comunicação capazes de colocar uma mensagem ao alcance de grande número de indivíduos não basta para caracterizar a existência de uma Indústria Cultural e de uma cultura de massa.
  A Indústria Cultural é fruto da sociedade industrializada, de tipo capitalista liberal. Mais especificamente, porém, a indústria cultural concretiza-se apenas numa segunda fase dessa sociedade, a que pode ser descrita como a do capitalismo de organização (ou monopolista) ou, ainda, como sendo a sociedade dita de consumo.
   Considerada ainda como condição para a existência dessa Indústria uma oposição entre a cultura dita superior e a de massa, apesar dos equívocos envolvidos nessa divisão. Admitida essa divisão, pode-se falar na existência de uma cultura superior, outra média(midcult) e uma terceira, de massa (masscult,inferior). A segunda distingue-se da terceira, basicamente, por sua pretensão de apresentar produtos que se querem superiores mas que são,  de fato, formas desbastadas daqueles. Ao passo que a masscult se contenta com o fornecer produtos sem qualquer pretensão ou álibi cultural.
   É possível ainda, estabelecer-se uma oposição entre a cultura popular, entendida como soma dos valores ancestrais de um povo, e a cultura dita pop, outra designação de cultura de massa. Os mesmos excessos de valorização da cultura superior, diante da de massa, também são encontrados na defesa da popular diante da pop.
  
Com seus produtos, a Indústria Cultural pratica o reforço das normas sociais, repetidas até a exaustão sem discussão. Em conseqüência, uma outra função: a de promover o conformismo funcional. Ela fabrica seus produtos cuja finalidade é a de serem trocados por moeda; promove a deturpação e a degradação do gosto popular; simplifica  ao máximo seus produtos, a obter uma atitude sempre passiva do consumidor; assume uma atitude paternalista, dirigindo o consumidor ao invés de colocar-se a sua disposição.
   Ao lado da defesa da Indústria Cultural está a tese de que não é fator de alienação na medida em que sua própria dinâmica interior a leva a produções que acabam por beneficiar  o desenvolvimento do homem. A favor desta idéia lembra-se, por exemplo que as crianças hoje dominam muito mais cedo a linguagem graças a veículos como a TV. O acúmulo de informação acaba por transformar-se em formação dos indivíduos, isto é, a quantidade provocando alterações na qualidade. Ou que a Indústria Cultural acaba por unificar não apenas as nacionalidades mas também as próprias massas.
   Não se sabe bem o que é massa. Ora é o povo, excluindo-se a classe dominante. Ora são todos. Ou um conjunto amorfo de indivíduos sem vontade. Pode surgir como um aglomerado heterogêneo de indivíduos, ou como entidade absolutamente homogênea para outros. O resultado é que o termo “massa” acaba sendo utilizado quase sempre conotativamente (isto é, com um segundo sentido) quando deveria sê-lo denotativamente com um sentido fixado, normalizado.Na verdade esta é uma questão um tanto bizantina: essa cultura de ou para ou sobre a massa existe para quem se der ao trabalho de abrir os olhos.
   Havendo preconceito de classe diante das reais dificuldades metodológicas de delimitação do conceito de massa, talvez seja melhor falar-se numa cultura industrial ou industrializada, particularmente quando se pretende atribuir a essa entidade um valor negativo.

 Alienação e revelação na indústria cultural

   Entendido como um processo no qual o indivíduo é levado a não meditar sobre si mesmo e sobre a totalidade do meio social circundante, transformando-se com isso em mero joguete e, afinal, em simples produto alimentar do sistema que o envolve.

   Há duas grandes tendências, quando se trata de saber se a indústria cultural provoca a alienação ou produz a revelação. A resposta pode ser dada através da análise do conteúdo veiculado pelos meios de que serve a indústria cultural.

 O conteúdo como determinante

   A primeira tendência, assim, pretende-se à questão do conteúdo. Para esta, os produtos da Indústria Cultural serão bons ou maus, alienantes ou reveladores, conforme a mensagem eventualmente a eles vinculada.

   E ela firmou-se e espalhou-se um pouco por toda a parte, estabelecendo consigo a visão puritana e equivocada da eficácia e do trabalho como valores maiores do homem, diante dos quais o prazer é banido da prática cultural.

 É muito comum ler uma crítica que exige seriedade e engajamento da TV ou do rádio ao invés de diversão.

 “A massa é ignorante e portanto não pode perder tempo com prazer; temos, nós, de torná-la culta, através da seriedade”.  Maiakovski

1-     Combater o prazer;

2- Combater o prazer particularmente nos veículos da indústria cultural.

 A limitação do sistema produtor      

 Todo produto traz em  si os vestígios, as marcas do sistema produtor que o engendrou.

 Que a indústria cultural tem seu berço propriamente dito apenas a partir do século XIX, de capitalismo dito a liberal, que a indústria cultural atinge seu grande momento com o capitalismo de organização ou monopolista.

 A mensagem da natureza do veículo     

 McLuhan colocando-se na posição contrária a ocupada pelos que se preocupam com o conteúdo das mensagens produzidas pela indústria cultural (para a partir daí determinar se elas são ou não alientas), McLuhan observa que essa preocupação com o conteúdo e a tendência para atribuir certos efeitos a certos conteúdos são resquícios de uma cultura letrada incapaz de adaptar-se às novas condições.

 Uma preocupação excessiva com os conteúdos veiculados pelos meios da indústria cultural, quando o alvo dessa atenção deveria ser esses mesmos meios considerados em si mesmos, independentemente de qualquer conteúdo e do ponto de vista de sua organização interior, de sua natureza, de sua estrutura.

 McLuhan considera um erro dizer que o valor da TV, por exemplo, depende do tipo de programa por ela divulgado – o que eqüivaleria a dizer que a TV será boa se disparar a munição certa contra as pessoas certas.

 E como, na verdade, o que interessa aqui é ilustrar a tese segundo a qual a questão da alienação através da indústria cultural deve ser analisada sob o ponto de vista estrutural e não a partir do conteúdo das mensagens, ficaremos com apenas um dos veículos dessa indústria, possivelmente o mais expressivo deles: a TV.

 À primeira vista, viria a tentação de dizer que o  modo de recepção pela TV é coletivizante, ao contrário do que ocorre no processo da leitura, experiência individual por excelência.

 Uma coisa é ler no jornal que “foram fuzilados quinze revolucionários”e outra bem diferente é ver na tela pessoas vivas tombarem para trás sob o impacto da balas estraçalhantes, enquanto os membros do pelotão de fuzilamento gritam de satisfação.

 É que tanto para o indivíduo quanto para as nações, a TV é um meio unidirecional, unívoco: a informação por ele veiculada segue apenas um sentido, da fonte para o receptor, sem retorno.

 Análise pelo processo de significação

 Todo processo de significação – e este é o processo em jogo nos veículos da indústria cultural, como aliás em todas as demais atividades relativas ao ser humano –  está baseado na operação de signo.

 E cada tipo de signo tende a provocar um certo tipo de relacionamento entre ele mesmo e a pessoa que o recebe, nesta provocando também u7m tipo particular de interpretante ou significado.

 A)    Ícone, ou signo icônico, é um signo que tem uma analogia com objeto representado: uma foto, uma escultura.

B)     Índice, ou signo indical: signo que representa seu objeto por remeter-se diretamente a ele; o índice aponta para seu objeto, para seu referente; sem ser semelhante a seu objeto, como o ícone, está ligado a ele de tal modo que, sem ele, não pode existis.

 O índice não tem autonomia de existência. 

Mas o conhecimento do índice não possibilita  o conhecimento do objeto significado, a não ser sobre aspectos muito restritos.

 Já o índice não existe se seu receptor não conhecer previamente o objeto representado: se eu já não tiver visto a relação entre nuvem escura e chuva, não poderei interpretar o signo “nuvem escura”.

 c)      Símbolo, ou signo simbólico: signo que representa seu objeto em virtude de uma convenção de um acordo.

 Quanto ao símbolo, diversamente do ícone, não tem nenhum traço em comum com seu objeto, nem está ligado a ele de algum modo: ele é arbitrário. O exemplo mais comum de símbolo é a palavra , qualquer palavra.

 Ela representa o objeto cão graças a uma convenção entre os homens: Diz a convenção que uma coisa com um c associada a uma um o, mais o traço gráfico ~ deve ser entendida como significado um certo tipo de animal doméstico.

 Não exige que seu receptor conheça o objeto a que se refere, como o índice: o símbolo é, mesmo, um modo de conhecer coisas novas.

 Símbolo não implica o conhecimento da coisa representada tal como ela é.

 O símbolo não tem ligações com a coisa significada, independe desta.

 Alienação/ revelação na indústria cultural.

 O que se pretende dizer com consciência icônica é que se trata de uma consciência que procede com seu objeto, com o objeto sobre o qual se debruça, do mesmo modo como o signo icônico faz com seu objeto. Isto é: ela procede por analogia.

 Uma seta que indica um certo caminho só funciona efetivamente como signo indicial para alguém interessado em descobrir esse caminho e que o descobre, locomovendo-se: ou o signo indicial funciona ou não será signo indicial. 

A recepção do signo indicial implica um certo esforço, físico ou mental.

 É que, não sendo uma consciência de instituição, a indicial é uma consciência de instatação: o cata-vento me diz que realmente a vento e que o vento sopra nesta direção. Eu constato, não intuo.

 A categoria do signo simbólico corresponde a da consciência simbólica: trata-se de uma consciência interessada na investigação do objeto em questão, uma consciência que produz as convenções, as normas, que pretende conhecer as causas. Não se contenta com sentir ou intuir uma coisa, nem em constatar que ela existe: quer saber porque desiste. Se a icônica é analógica e intuitiva, enquanto a indicial é operativa, a consciência simbólica é lógica.

 Aqui, então, vai ser possível dizer que o problema com a indústria cultural não é tanto o que ela diz ou não; não é tanto o fato de ser ela deste ou daquele modo, estruturalmente; nem o fato de ter surgido neste ou naquele sistema político-social – mas, sim, no modo como diz. É o paraíso do signo indicial, da consciência indicial.

 Toda a indústria cultural vem operando com signos indiciais e, assim, provocando a formação e desenvolvimento de consciências indiciais. Tudo, signos e consciências e objetos, é efêmero, rápido, transitório; não a tempo para a intuição e o sentimento das coisas, nem para o exame lógico dela; a tônica consiste apenas em mostrar, indicar, constatar.

 O que interessa não é sentir, intuir ou argumentar, propriedades da consciência icônica e simbólica; apenas, operar.

 A  capacidade de interpretar o mundo iconicamente, de distinguir o sentido nas coisas, vê-se cada vez mais diminuída.

 Voltando à indústria cultural, deve-se observar, então, ser totalmente fora de propósito dizer que a indústria cultural é o universo do ícone; que, através da indústria cultural, estamos na era do ícone e da consciência icônica.

 Os ícones existem superficialmente, mas o modo pelo qual são dispostos é indicial, formando-se no indivíduo receptor uma consciência sob a forma de mosaico, composta por retalhos de coisas vistas rapidamente, numa tela onde se multiplicam e se sucedem imagens desconexas a impedir, para esse indivíduo, uma visão totalizante de si e de seu mundo, provocando, dessa forma, o processo de alienação.

Por ora fiquemos com uma síntese a respeito dos modos de encarar a questão revelação / alienação na indústria cultural:

 A)    Há uma corrente que aborda o problema sob o ponto de vista do conteúdo das mensagens divulgadas pela indústria cultural. Para esta, a indústria cultural e seus veículos são instrumentos passíveis de serem usados tanto para o esclarecimento como para o embotamento  (e conseqüente manipulação) de seus receptores, sendo decisiva a ideologia responsável pela elaboração desses produtos culturais.

 B)     De outro lado, diz – se que o conteúdo e irrelevante, importante a natureza específica da indústria cultural e seus veículos.

 Aqui, verifica – se uma tendência no sentido de apresentar essa indústria como produto de uma sociedade (a do capitalismo liberal e, a seguir, do capitalismo monopolista) cujo traço maior seria a produção da alienação. Neste caso, a indústria cultural também seria produtora de alienação, não importando o conteúdo das margens.

 Uma outra tendência, defendida entre outros por McLuhan, preocupa – se também com a natureza dos meios e não com o conteúdo de suas mensagens, mas não opta por uma análise ideológica do fenômeno, como a interior.  Privilegia uma análise da natureza específica de cada meio, detendo – se em seus aspectos ditos técnicos.

 C)    O terceiro modo de abordar o problema, aqui exposto, não privilegia nem o estudo do conteúdo, nem a análise da natureza da indústria cultural e seus veículos. Partindo de uma teoria, a semiótica – que estuda o signo, seus modos de elaboração e formulação e suas relações com o processo humano de interpretação – esta tendência coloca o problema na maneira de interpretar o mundo, no modo de formar uma visão no mundo.

 
 

 

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