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Fruto de
décadas de colaboração entre Karl Marx e
Friedrich Engels, o marxismo influenciou
os mais diversos setores da atividade
humana ao longo do século XX, desde a
política e a prática sindical até a
análise e interpretação de fatos
sociais, morais, artísticos, históricos
e econômicos, e se tornou doutrina
oficial dos países de regime comunista.
Marxismo
é o conjunto das idéias filosóficas,
econômicas, políticas e sociais que Marx
e Engels elaboraram e que mais tarde
foram desenvolvidas por seguidores.
Interpreta a vida social conforme a
dinâmica da luta de classes e prevê a
transformação das sociedades de acordo
com as leis do desenvolvimento histórico
de seu sistema produtivo.
Os pontos
de partida do marxismo são a dialética
de G. W. F. Hegel, a filosofia
materialista de Ludwig Feuerbach e dos
enciclopedistas franceses e as teorias
econômicas dos ingleses Adam Smith e
David Ricardo. Mais do que uma
filosofia, o marxismo é a crítica
radical da filosofia, principalmente do
sistema filosófico idealista de Hegel.
Enquanto para Hegel a realidade se faz
filosofia, para Marx a filosofia precisa
incidir sobre a realidade. O núcleo do
pensamento de Marx é sua interpretação
do homem, que começa com a necessidade
humana. A história se inicia com o
próprio homem que, na busca da
satisfação de necessidades, luta contra
a natureza. À medida que luta, o homem
se descobre como ser produtivo e passa a
ter consciência de si e do mundo.
Percebe então que "a história é o
processo de criação do homem pelo
trabalho humano".
As duas
vertentes do marxismo são o materialismo
dialético, para o qual a natureza, a
vida e a consciência se constituem de
matéria em movimento e evolução
permanente, e o materialismo histórico,
para o qual o fato econômico é base e
causa determinante dos fenômenos
históricos e sociais, inclusive as
instituições jurídicas e políticas, a
moralidade, a religião e as artes.
A teoria
marxista desenvolve-se em quatro níveis
de análise -- filosófico, econômico,
político e sociológico -- em torno da
idéia central de mudança. Em suas Thesen
über Feuerbach (1845, publicadas em
1888; Teses sobre Feuerbach), Marx
escreveu: "Até o momento, os filósofos
apenas interpretaram o mundo; o
fundamental agora é transformá-lo." Para
transformar o mundo é necessário
vincular o pensamento à prática
revolucionária. Interpretada por
diversos seguidores, a teoria tornou-se
uma ideologia que se estendeu a regiões
de todo o mundo e foi acrescida de
características nacionais. Surgiram
assim versões como as dos partidos
comunistas francês e italiano, o
marxismo-leninismo na União Soviética,
as experiências no leste europeu, o
maoísmo na China e Albânia e as
interpretações da Coréia do Norte, de
Cuba e dos partidos únicos africanos, em
que se mistura até com ritos tribais.
Materialismo dialético. De uma
perspectiva idealista, Hegel, filósofo
alemão do século XIX, englobava a
natureza, a história e o espírito no
processo dialético de movimento das
idéias, determinado pela oposição de
elementos contrários (tese e antítese)
que progridem em direção a formas mais
aperfeiçoadas (síntese). Assim, no devir
da história, o processo dialético
impulsiona o desenvolvimento da idéia
absoluta pela sucessão de momentos de
afirmação (tese), de negação (antítese)
e de negação da negação (síntese)
Marx adotou a dialética hegeliana e
substituiu o devir das idéias, ou do
espírito humano, pelo progresso material
e econômico. Em Zur Kritik der
Politischen Ökonomie (1859; Contribuição
à crítica da economia política), resume
o que mais tarde foi chamado
materialismo dialético: "Não é a
consciência do homem que determina seu
ser, mas o ser social que determina sua
consciência." Pelo método dialético,
sustentou que o capitalismo industrial
(afirmação) engendra o proletariado
(negação) e essa contradição é superada,
no futuro, pela negação da negação, isto
é, pela sociedade sem classes.
Outra
chave do marxismo está no pensamento do
filósofo alemão Ludwig Feuerbach.
Discípulo de Hegel, Feuerbach inverteu
na dialética os lugares ocupados pela
idéia e pela matéria e formulou a teoria
da alienação do homem, entendendo Deus
como ilusão humana ditada por
necessidades da realidade material. Marx
detectou certa inconsistência no
materialismo de Feuerbach, pois este
considerava o homem como ser puramente
biológico. Tomando uma noção criada por
Moses Hess, também hegeliano, Marx
definiu o homem em sua relação com a
natureza e a sociedade, isto é, em sua
dimensão econômica e produtiva, e viu no
estado, na propriedade e no capital a
fonte da alienação humana. Para Marx, as
relações materiais de produção de uma
sociedade determinam a alienação
política, religiosa e ideológica, como
conseqüências inequívocas das condições
de dominação econômica.
Materialismo histórico. Também chamado
concepção materialista da história, o
materialismo histórico é a aplicação do
marxismo ao estudo da evolução histórica
das sociedades humanas. Essa evolução se
explica pela análise dos acontecimentos
materiais, essencialmente econômicos e
tecnológicos. Na atividade econômica e
social, os homens estabelecem relações
necessárias e independentes de sua
vontade. São as relações de produção,
que correspondem a um determinado grau
de desenvolvimento das forças produtivas
(trabalho humano, instrumentos,
máquinas). O conjunto das relações de
produção forma a infra-estrutura
econômica da sociedade, base material
sobre a qual se eleva uma superestrutura
política, jurídica e ideológica, o que
engloba as idéias morais, estéticas e
religiosas. Assim, o modo de produção
dos bens materiais condiciona a vida
social, política e intelectual que, por
sua vez, interage com a base material.
Para contrabalançar o determinismo
econômico da teoria, Marx afirmou a
existência de uma constante interação e
interdependência entre a infra-estrutura
e a superestrutura, embora, em última
instância, os fatores econômicos sejam
os determinantes.
No curso de seu desenvolvimento, as
forças produtivas da sociedade entram em
contradição com as relações de produção
existentes e estas convertem-se em
obstáculos à continuidade do processo
produtivo. Inicia-se então uma era de
revolução social que afeta a fundo a
estrutura ideológica, de modo que os
homens adquirem consciência do conflito
de que participam.
As
relações capitalistas de produção seriam
a forma final de antagonismo no processo
histórico. O modo de produção do
capitalismo industrial conduz de modo
inevitável à superação da propriedade
privada, não só pela rebelião dos
oprimidos como pela própria evolução do
sistema, em que a progressiva acumulação
de capital determina a necessidade de
novas relações de produção baseadas na
propriedade coletiva dos meios de
produção. Superado o regime de
propriedade privada, o homem venceria a
alienação econômica e, em seguida, todas
as outras formas de alienação de si
mesmo.
No
decorrer do processo histórico, as
relações econômicas evoluíram segundo
uma contínua luta dialética entre os
proprietários dos meios de produção e os
trabalhadores espoliados e explorados.
No primeiro capítulo do Manifest der
Kommunistischen Partei (1848; Manifesto
comunista), Marx e Engels afirmam que a
"história de todas as sociedades do
passado é a história da luta de
classes". Segundo o materialismo
histórico, o comunismo primitivo seria a
tese oposta à antítese expressa pelas
sociedades de classe (escravistas,
feudais e capitalistas). A sociedade sem
classes, alcançada mediante a práxis
(isto é, a teoria posta em prática)
revolucionária, seria a síntese final
das organizações sociais.
Crítica
do sistema capitalista. Marx rejeitou o
idealismo dos socialistas utópicos,
sobretudo Charles Fourier e Henri de
Saint-Simon, que criticaram o
capitalismo de um ponto de vista
humanitário e defenderam a mudança
gradual para um regime social baseado na
propriedade e no trabalho coletivos.
Marx formulou então a doutrina do
socialismo científico, em que a crítica
à estrutura econômica do capitalismo
permite reconhecer as leis dialéticas de
sua evolução e decomposição.
Para
Marx, o trabalho é a essência do homem,
pois é o meio pelo qual ele se relaciona
com a natureza e a transforma em bens a
que se confere valor. A desqualificação
moral do capitalismo ocorre por ser um
modo de produção que converte a força de
trabalho em mercadoria e, desse modo,
aliena o trabalhador como ser humano.
Marx
concordou com os economistas clássicos
britânicos, para quem o trabalho é a
medida de todas as coisas. A força de
trabalho do operário, vendida ao
capitalista, incorpora-se a um produto
que se vende no mercado por um valor
superior a seu custo de produção. A
diferença entre o valor final do produto
e o custo de produção constitui a
mais-valia, o excedente ou valor
acrescentado pelo trabalho. O custo de
produção é a soma do valor dos meios de
produção (maquinaria e matérias-primas)
e do valor da força de trabalho, este
expresso em bens indispensáveis à
subsistência do operário e sua família.
A mais-valia, portanto, converte-se em
lucro para o capitalista.
Marx distingue dois tipos de
mais-valia, a absoluta e a relativa, que
se definem pela maneira como são
aumentadas. A mais-valia absoluta
aumenta proporcionalmente ao aumento do
número de horas da jornada de trabalho,
conservando-se constante o salário. O
valor produzido pelo trabalho nesse
tempo adicional corresponde à mais-valia
absoluta. Assim, quanto mais horas o
operário trabalhar, maior será o lucro
do capital, isto é, a mais-valia
absoluta, e sua acumulação. A mais-valia
relativa aumenta com o aumento da
produtividade, com a racionalização do
processo produtivo e com o
aperfeiçoamento tecnológico. O
trabalhador passa a produzir mais no
mesmo tempo de trabalho, e isso aumenta
relativamente a mais-valia.
A
obtenção de mais-valia conduz à
acumulação do capital expressa na
concentração fabril e empresarial e no
progresso tecnológico incorporado à
maquinaria das grandes indústrias. O uso
de máquinas cada vez mais produtivas
elimina periodicamente parte da força de
trabalho. Os operários dispensados
engrossam o "exército industrial de
reserva" (os desempregados) em situação
de concorrência que favorece a redução
dos salários e a pauperização da classe
operária.
A
formação de cartéis e monopólios, em
conseqüência da concentração de capital,
diminui o número de capitalistas e
provoca uma crise de superprodução,
manifestação típica das contradições do
capitalismo, já que, em busca de lucro
máximo, o capitalista adota novos
instrumentos de trabalho que geram
produção maior do que o mercado é capaz
de absorver. As crises periódicas fazem
aumentar o desemprego, proletarizam as
classes intermediárias e empobrecem a
classe operária. O sistema capitalista
desaparecerá em conseqüência das
próprias contradições e da oposição
entre o caráter coletivo da produção e o
caráter privado da apropriação. A ação
revolucionária dos oprimidos, ou seja,
da classe operária, deve incidir sobre o
sistema capitalista. A tomada do poder
por essa classe implicaria a instauração
de um estado socialista transitório, a
ditadura do proletariado, que se
dissolveria após cumprir sua missão de
organizar o sistema coletivista e
liquidar as antigas classes sociais.
Depois dessa fase se chegaria finalmente
ao comunismo, sociedade sem classes e
sem exploração do homem pelo homem.
Revisionismo e marxismo-leninismo. No
final do século XIX, o marxismo passou a
atrair cada vez mais o movimento
operário mundial, embora o anarquismo e
o pensamento social-cristão mantivessem
sua influência. O desenvolvimento
industrial em alguns países, porém,
contribuiu para melhorar o padrão de
vida da classe trabalhadora, ao
contrário das previsões de Marx, e
reforçou os sistemas políticos
social-democratas.
Nas
primeiras décadas do século XX, os
alemães Karl Liebknecht e Rosa
Luxemburgo ratificaram o caráter
revolucionário do marxismo e adaptaram a
doutrina às novas condições do
capitalismo. Na mesma direção seguiu
Lenin, personagem decisivo da revolução
russa de 1917. Sua contribuição originou
o marxismo-leninismo, com novas
abordagens da doutrina e do movimento
comunista, como a análise do
imperialismo, a possibilidade da
revolução em países não
industrializados, a participação do
campesinato na ação revolucionária e a
organização do partido comunista como
vanguarda da classe operária.
O
marxismo-leninismo foi interpretado de
maneiras diversas após a morte de Lenin.
Nikolai Ivanovitch Bukharin preconizou
uma concepção revisionista e Trotski
desenvolveu os aspectos revolucionários
da doutrina. Stalin simplificou os
postulados do marxismo-leninismo,
formulou a teoria do socialismo em um só
país, contra a tese trotskista, que
preconizava a internacionalização da
revolução, e defendeu a possibilidade de
um desenvolvimento auto-suficiente da
economia soviética, sem relação com o
mundo capitalista.
A partir
do marxismo-leninismo, o líder comunista
chinês Mao Zedong elaborou uma doutrina
original, o maoísmo, adaptada ao
desenvolvimento da revolução na China e
às características milenares da cultura
chinesa: é maoísta, por exemplo, o
princípio segundo o qual os estudantes
jamais devem ser orientados para a
competição, mas exclusivamente para a
cooperação.
O
marxismo teve teóricos de grande
expressão no mundo das idéias, como
Antonio Gramsci, György Lukács, Theodor
W. Adorno, Karl Korsch e Louis
Althusser. Depois da segunda guerra
mundial, surgiram interpretações não
dogmáticas do marxismo, com a
incorporação de filosofias como as de
Edmund Husserl e Martin Heidegger e de
idéias de teóricos de outras áreas, como
Sigmund Freud. Economistas,
historiadores antropólogos, sociólogos,
psicólogos, estudiosos da moral e das
artes, incorporaram a metodologia
marxista sem necessariamente aderir à
filosofia política e à prática
revolucionária do marxismo.
A queda
dos regimes comunistas nos países do
leste europeu e a dissolução da União
Soviética levaram ao questionamento dos
postulados doutrinários marxistas.
Permaneceram, porém, o respeito e a
admiração pelo rigor científico,
originalidade, coerência interna e
abrangência da obra de Marx e Engels.
Fonte: Encyclopaedia Britannica do
Brasil (Barsa)
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