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Nas noites de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, abriu-se ao público o saguão do Teatro Municipal de São Paulo, onde vários artistas mostravam obras com uma linguagem nova, afinada com as correntes estéticas do começo do século. É bom lembrar que a Europa, nessa altura, já vivia o derradeiro movimento de vanguarda, o Surrealismo.
A abertura da Semana esteve a cargo de Graça Aranha, escritor pré-modernista que aderiu ao movimento dos modernos. Sua conferência A emoção estética na arte moderna foi ilustrada com declamação de poemas. Seguiu-se execução de peças de Villa-Lobos.
Na segunda noite, Ronald de Carvalho declamou o hoje conhecidíssimo poema "Os sapos", de Manuel Bandeira, em que se ridicularizava o Parnasianismo.
Foi a noite mais agitada da Semana. Gritos e vaias do público acompanhavam a declamação. No intervalo, Mário de Andrade fez uma palestra no saguão do teatro. Na segunda parte do programa apresenta-se ma pianista já consagrada: Guiomar Novaes.
Na terceira noite, dedicada à música, houve um incidente: Villa-Lobos apresentou-se de casaca e chinelos. Mas não era uma agressão; o compositor estava com um pé machucado.
A Semana de Arte Moderna só foi possível graças ao apoio financeiro dos fazendeiros de café. E aí reside uma contradição, pois um dos objetivos declarados dos organizadores do acontecimento era "assustar a burguesia que cochila na glória de seus lucros". Proposta feita, proposta alcançada: assobios, vaias e, segundo alguns, até agressões assinalaram a reação do público.
Foi esse o clima que marcou a ruptura com o tradicionalismo. Nossos modernistas de primeiro momento apresentavam uma arte que estava em consonância com o grande movimento internacional de renovação de idéias.
Além de empregar uma nova linguagem, os artistas da Semana atacavam abertamente o passado, sobretudo o Parnasianismo. Por que o Parnasianismo? Primeiro, porque era o estilo que antecedia de perto o Modernismo; segundo, porque foi um estilo muito apegado a regras e modelos; terceiro, porque era ainda o que valia como referência artística para a classe dominante, justamente aquela que se queria chocar.
Obviamente, se tivesse permanecido restrita a São Paulo, a Semana não teria tido tão grande importância renovadora.
A partir dos acontecimentos do Teatro Municipal, divulgados pela imprensa da época, as novas idéias encontraram adeptos em todo o país, ora adeptos mais serenos, ora mais radicais. No período compreendido entre 1922 e 1930 primeira fase do Modernismo manifestos, revistas, grupos recém-formados difundiram-se por nosso cenário cultural como nunca havia acontecido antes.
Obviamente, havia discordâncias entre os grupos. Às vezes, até oposições fortes. O que havia de comum em todos, no entanto, era a certeza da urgente necessidade de renovar nossa cultura.
Desde o início da segunda década do século, atividades culturais diversas deram início ao processo de corrosão da arte acadêmica brasileira. Vejamos alguns desses episódios:
Oswald de Andrade e Emílio Menezes fundaram, em 1911, a revista de arte Pirralho, cujos princípios questionavam a arte brasileira. Nesse jornal divulgaram-se as composições de Juó Bananere pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado, sátiras de textos consagrados de nossa literatura, considerados até então como intocáveis. As sátiras eram bastante irreverentes e divertidas, principalmente porque o autor utilizava um italiano "macarrônico" para expressar-se. Aliás, tratava-se de uma língua comum nos bairros de São Paulo onde os imigrantes italianos tinham-se fixado.
A irreverência seria uma das marcas registradas da primeira fase modernista. Bananere antecipava-se.
Em 1912, Oswald de Andrade voltou de sua primeira viagem à Europa e divulgou idéias cubistas e futuristas, entre elas a do verso livre.
No ano seguinte, um pintor russo que se fixara no Brasil Lasar Segall fez uma exposição de pintura expressionista. Em 1914 foi a vez de Anita Malfatti mostrar quadros expressionistas, resultado de seu estágio na Alemanha.
O ano de 1917 é especialmente marcante na gestação da Semana. Primeiro, porque alguns escritores que futuramente produziriam obras modernistas publicaram textos com tímidas inovações de linguagem. Tímidas, mas inovações. É o caso de Mário de Andrade, que sob o pseudônimo de Mário Sobral, publicou Há uma gota de sangue em cada poema. Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida também publicaram novidades. Segundo, porque Anita Malfatti fez uma exposição de pintura com tendência cubista, dando motivo a uma violenta crítica do escritor Monteiro Lobato, que, num artigo intitulado "Paranóia ou mistificação?", reagiu violentamente à obra de Anita. O artigo dividiu artistas e público, simbolizando o primeiro confronto aberto entre o velho e o novo.
Lobato radicalizou:
"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência fazem arte pura (...) A outra espécie é formada dos que vêem anormalmente a natureza e a interpretam à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento... "
Ora, Lobato, além de ser, um pré-modernista, com idéias avançadas, era respeitadíssimo por toda a intelectualidade, conservadora ou não. Sua crítica pesou muito. Mais tarde, Lobato reconheceu que entendia pouco de artes plásticas para ter escrito tudo aquilo.
Em 1921, Oswald de Andrade publicou um artigo chamando Mário de Andrade de "meu poeta futurista". Ocorre que Oswald tinha lido os originais de Paulicéia desvairada livro que seria publicado em 1922 e representaria o primeiro livro de poemas modernistas. Mário respondeu negando sua condição de futurista.
Explica-se a atitude de Mário: nessa altura, o Futurismo italiano estava associado ao nazi-fascismo, ideologia rejeitada pelo escritor.
Nesse mesmo ano, Di Cavalcanti fez uma exposição em São Paulo e, segundo consta, lançou a idéia: por que não realizar uma "semana" de arte moderna?
Em resumo, enquanto não tinham um programa ideológico e estético pronto, os modernistas iam tomando contato com os ismos europeus, através de livros e revistas. |