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PONTO LITERÁRIO

   

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Retórica

Arte de falar bem, mediante a utilização de diferentes recursos da linguagem, com o objetivo de provocar determinado efeito no ouvinte. Também chamada oratória.

Educação ; Grega, literatura ; Isócrates

Existe uma retórica natural, assimilada empiricamente junto com a linguagem. É um patrimônio coletivo, embora não inteiramente consciente, de todos os membros de uma sociedade falante. Essa retórica natural vem a ser a base desenvolvida e sistematizada pela retórica escolar.
Retórica é a arte de exprimir-se bem pela palavra, ou seja, de utilizar todos os recursos da linguagem com o objetivo de provocar determinado efeito no ouvinte. A premissa básica da retórica é que todo discurso é feito com a intenção de alterar uma situação determinada. A retórica escolar tem sentido mais restrito: é a arte do discurso partidário, exercida principalmente nos tribunais. Como disciplina ensinada e aprendida, a retórica apresenta um sistema de formas de pensamento e de linguagem, que devem ser conscientemente utilizadas.
Evolução histórica. A arte da retórica nasceu na Sicília, em meados do século V a.C., quando a política dos tiranos deu lugar à democracia. No mundo grego, a oratória veio a ser uma necessidade fundamental do cidadão, que teria de defender seus direitos nas assembléias. Pouco a pouco, começaram a surgir profissionais da retórica -- os primeiros advogados -- que ainda não representavam seus clientes na tribuna, mas orientavam seus discursos, quando não os escreviam totalmente, obrigando os clientes a decorá-los, para realizar uma exposição correta e obter o ganho da causa.
Os primeiros profissionais retores de que há notícia são dois sicilianos de Siracusa, Córax e Tísias, que, no ano de 460 a.C., definiram-na como a arte da persuasão e começaram a sistematizar as regras do discurso forense, para o qual prescreveram três seções: provímion, "proêmio", agones, "pleito" e epílogos, "epílogo".
No mesmo século, os sofistas foram responsáveis por um grande impulso na evolução da retórica. Consideravam que, sendo a verdade relativa, poderia depender da forma do discurso no qual fosse apresentada. Criaram então escolas de retórica, que passaram a ser freqüentadas pelas pessoas que tinham necessidade de falar em público. Platão não compartilhava das idéias dos sofistas e postulava a existência de uma verdade absoluta, inquestionável. Portanto, a linguagem seria fundamentalmente um meio de expressão dessa verdade e das leis da moral.
Aristóteles é o autor do mais importante tratado da antiguidade sobre o tema. Em sua Retórica, estabeleceu como qualidades máximas para o estilo a clareza e a adequação dos meios de expressão ao assunto e ao momento do discurso. Relacionou os métodos de persuasão do júri e da assembléia e classificou-os em três categorias: os que induzem atitude favorável à pessoa do orador, os que produzem emoção e os argumentos lógicos e exemplos. Concordou com Platão quanto aos aspectos morais da retórica e distinguiu três tipos de discurso: deliberativo, para ser pronunciado nas assembléias políticas; forense, para ser ouvido no tribunal; e epidíctico, ou demonstrativo, tais como panegíricos, homenagens fúnebres etc. Cada tipo de discurso se estruturava segundo regras próprias para efetuar a persuasão.
A Roma republicana adotou a teoria aristotélica e em seu sistema legislativo e judicial atribuía grande importância à oratória, disciplina básica em seu sistema de educação. A prática da retórica decaiu no período imperial, em conseqüência da perda das liberdades civis. Os maiores oradores romanos foram Cícero, no século I a.C., e Quintiliano, um século depois. A retórica romana elaborou as práticas gregas e desenvolveu um processo de composição do discurso em cinco fases: a invenção, escolha das idéias apropriadas; a disposição, maneira de ordená-las; a elocução, que se referia ao uso de um estilo apropriado; a memorização; e, finalmente, a pronunciação. A retórica se estruturava assim como uma técnica mecanicista de construção do discurso.
O declínio do Império Romano levou ao desaparecimento dos foros públicos e a retórica civil praticamente se restringiu à elaboração dos panegíricos dos imperadores. A retórica foi também praticada pelos teólogos cristãos, que, quanto ao conteúdo, seguiam com fidelidade as doutrinas ditadas pela igreja, embora imitassem o estilo dos autores clássicos. Por volta do século XVI, era aplicada à redação de cartas. Sob a influência do humanista francês Petrus Ramus foi reduzida principalmente a questões de estilo e se tornou uma coleção de figuras de linguagem. A partir de então ganhou a fama de ser mera ornamentação formal, sem conteúdo. Foi relegada às escolas para ensino do latim e permaneceu por três séculos sem maiores alterações.

Retórica moderna - As transformações registradas na teoria do conhecimento, iniciadas após o Renascimento com René Descartes e John Locke, superaram algumas das idéias da retórica clássica. Nietzsche e filósofos contemporâneos como Thomas Kuhn já não consideram a linguagem como simples espelho da realidade e expressão da verdade absoluta, mas, pelo contrário, acreditam que atua como um filtro que condiciona a percepção.
Devido a essas mudanças na epistemologia, a retórica clássica fornece um modelo capcioso para os estudiosos da linguagem enquanto comunicação ou transmissão de conhecimento. A verdade não é mais definida como idéia prefixada que a linguagem apresenta de forma atraente, mas como idéia relativa a uma perspectiva que é intrínseca à própria linguagem. Pensadores do pós-estruturalismo, que vêem a linguagem como estrutura cultural preexistente, que condiciona o indivíduo, pretendem fazer o exame retórico inclusive de outras formas de discurso relacionadas à linguagem.
Tornam-se objeto desse estudo o cinema, a televisão, a publicidade, o mercado financeiro, os partidos políticos e os sistemas educacionais, estruturas produtoras de discurso e intrinsecamente retóricas, já que instituídas para persuadir e provocar resultados específicos. Outros retóricos modernos compreendem toda comunicação lingüística como argumentação e advogam que a análise e a interpretação do discurso sejam baseadas em um entendimento da reação e da situação social da audiência.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

 

 

 
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