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PONTO LITERÁRIO

   

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Epopéia

Poema heróico, protagonizado por um ou vários personagens idealizados, que celebra feitos significativos de um povo ou nação. Cristalizada como gênero literário na antiguidade greco-romana.

Grega, literatura ; Poesia

v. tb. Beowulf; Eneida; Gesta; Ilíada; Kalevala; Nibelungos, Canção dos; Odisséia

Presente na Mesopotâmia e na Índia, cristalizada como gênero literário na Grécia, com a Ilíada e a Odisséia, e revitalizada na cultura latina na Eneida, a epopéia eternizou lendas seculares e tradições ancestrais, preservadas ao longo dos séculos pela transmissão oral.
O termo epopéia designa um poema heróico, protagonizado por um ou vários personagens, caracterizados por suas ações titânicas, muitas vezes frente a obstáculos sobrenaturais ou maravilhosos, e por seus elevados ideais. A epopéia em geral celebra os feitos mais representativos de um povo ou nação e por isso manifesta um profundo espírito de exaltação nacional. Na conceituação clássica, epopéia constitui um dos três grandes gêneros em que se divide teoricamente a poesia: o épico, em que predomina a objetividade; o lírico, no qual prevalecem os acentos subjetivos; e o dramático, que os entrelaça.
Epopéia clássica. Na maioria das antigas civilizações produziu-se, em determinado momento, a compilação e a fusão das tradições nacionais orais num poema épico. Os exemplos mais antigos que se conhecem, ambos de origem mesopotâmica, são o Enuma elish, poema da criação, e o Gilgamesh, que narra o encontro do herói Gilgamesh com Utnapishtim, único ser humano ao qual estava reservada a vida eterna. Ambos os poemas datam, provavelmente, do quarto ou terceiro milênios antes de Cristo. Também o Mahabarata, poema de enorme interesse filosófico e social, atribuído ao lendário poeta hindu Vyasa, e o Ramayana, atribuído ao poeta Valmiki, cujo tema é a vida de Rama, rei de Ayudhya, são exemplos de epopéias.
As epopéias têm em comum, na origem, o caráter espontâneo, popular e coletivo. Constituíam o modo pelo qual as lendas eram normalmente transmitidas, obedecendo ao imemorial impulso humano de contar histórias. Em muitas delas, porém, a começar pela Ilíada e pela Odisséia, parece decisiva a ação final de um único artista - o poeta, que organiza o todo num enredo harmonioso e o transforma em poema de efeito grandioso e características universais.
O estilo característico da epopéia, nobre e grandiloqüente, se prestava à exaltação dos fatos narrados, desenrolados em cenários freqüentemente monumentais. Batalhas heróicas, viagens prolongadas e exóticas e a presença constante, na ação, de seres sobrenaturais são elementos básicos do poema épico, assim como a evocação à musa, que acontece logo no início da história.

Épica greco-romana - As epopéias gregas e romanas foram as de maior influência na cultura ocidental e criaram os modelos estilísticos e argumentativos que se tornariam os paradigmas do gênero.
Na Ilíada, Homero narra as aventuras do herói Aquiles durante a tragédia de Tróia. Na Odisséia, conta as desventuras de Ulisses, perdido pelos mares por muitos anos após a queda de Tróia, até sua volta triunfal, com a ajuda e a perseguição dos deuses do Olimpo. Nas duas obras, além da narrativa dos feitos heróicos, sobressaem valores como o espírito de nobreza, a amizade, o respeito à família e às tradições pátrias.
Dentre os seguidores de Homero no gênero épico destacam-se os chamados poetas cíclicos, como Pisandro de Rodes (século VII a.C.), autor da Heracléia, que narrava os feitos de Hércules. Ainda na Grécia, no século III, Calímaco, com a Hécate, e Apolônio de Rodes, com Os argonautas, tentaram inovar o gênero.
A maior epopéia da literatura latina, modelo para quantas se escreveriam depois no Ocidente, é a Eneida, que Virgílio começou a escrever no ano 29 a.C. e que dez anos depois, ao morrer, ainda não havia concluído. Embora o espírito da epopéia de Virgílio já estivesse bem distante do que iluminava a Ilíada e a Odisséia, suas fontes de inspiração, o autor da Eneida era dono de um verso magistral, musical, que conquistaria toda a Europa medieval e cristã. Sua obra repercutiu imensamente sobre os primeiros humanistas e sobre todo o Renascimento.
Na épica romana, depois de Virgílio, merecem destaque a Pharsalia, de Lucano, a Tebaida, de Públio Papínio Estácio, e Sobre o rapto de Prosérpina, de Claudiano, que consegue reviver o gênero já em seu período de decadência.
Muito posterior é O livro dos reis, do poeta persa Firdusi. Foi escrito no princípio do século XI e não se trata, como a maioria, de uma floração popular ou de índole coletiva; ao contrário, é obra individual e de requintada elaboração artística, que conta toda a história da Pérsia em sessenta mil dísticos. Assim como a Eneida no Ocidente, a obra de Firdusi serviu de modelo para toda a produção oriental no gênero.

Epopéia medieval e a evolução do gênero - As epopéias nacionais medievais, produtos anônimos do espírito popular e coletivo, foram as primeiras grandes obras escritas em língua vulgar e lançaram as bases da unidade européia medieval. Desenvolveram-se sobretudo nos países eslavos e na Alemanha, França e Espanha. Entre elas se destacam a Canção de Rolando e a Gesta de Carlos Magno, na França; Canção dos Nibelungos, na Alemanha; o poema épico inglês Beowulf, um dos mais vigorosos da literatura britânica; as espanholas Cantar de mío Cid e a Araucana, esta de Alonso de Ercilla; o Kalewipoeg, epopéia nacional da Estônia, e o Kalewala finlandês.
Na Itália, Francesco Petrarca, fascinado pelo gênero, tentou reviver a Eneida no poema épico Africa, escrito em latim em 1342, já em pleno humanismo. O rasgo de genialidade, porém, só viria com Os lusíadas (1572), de Luís de Camões, epopéia nacional portuguesa. Os lusíadas é um dos maiores monumentos poéticos do classicismo renascentista, humanista e erudito, no qual o gênio camoniano conseguiu harmonizar a objetividade épica e histórico-nacional com a subjetividade lírica, intensamente elegíaca.
A epopéia de cavalaria, um ramo colateral da epopéia virgiliana, teve seus pilares em Matteo Maria Boiardo, autor do Orlando apaixonado (1487); Ludovico Ariosto, que produziu em 1532 o Orlando furioso, verdadeiro clássico no gênero, absolutamente dominado pelo aspecto fantástico, e Edmund Spencer, com A rainha das fadas (1596), obra que se desenrola num universo de fadas, gnomos e duendes.
Na transição para o Renascimento aparece a obra-prima de Torquato Tasso, a Jerusalém libertada (1581), em que o ideal de cavalaria é substituído pelo heroísmo cristão das cruzadas. Brás Garcia de Mascarenhas, poeta e aventureiro português que viveu também no Brasil, deixou o poema Viriato trágico (1699), talvez a melhor epopéia no estilo camoniano.
Entre as epopéias sacras, destaca-se a Cristíada (1611), do poeta e religioso espanhol Diego de Hojeda. O inglês John Milton, em 1667, escreveu Paraíso perdido, a maior das epopéias inglesas, que se distingue das outras pela intensa força dramática que denota a caracterização de seus personagens. Na literatura brasileira, têm características épicas os poemas O Caramuru, de Santa Rita Durão, e A confederação dos tamoios, de Gonçalves de Magalhães.

Epopéia herói-cômica - Verdadeira antítese da epopéia heróica dos séculos XVI e XVII, da qual é contemporânea, a epopéia herói-cômica ridiculariza os enredos patéticos e os personagens da ação heróica. Utiliza, quase sempre, o recurso de celebrar acontecimentos insignificantes com elevado tom épico. A mais antiga que se conhece é a Batracomiomaquia, do século V a.C., outrora atribuída a Homero e posteriormente ao poeta lendário Pigres. Em 1521, Teófilo Folengo escreveu a Moschea, celebração satírica das guerras de moscas contra formigas. Morgante o grande (1482), de Luigi Pulci, zomba do romance de cavalaria. O cântaro roubado (1622), de Alessandro Tassoni, a Eneida travestida (1653), do francês Paul Scarron, e a Gatomaquia (1634), de Lope de Vega, são outros bons exemplos do gênero.
No final do século XVII, a epopéia era um gênero literário em franca decadência. Com a consolidação política das nações européias, a afirmação dos caracteres nacionais perdia um pouco sua razão de ser, e o romance ocupou, pouco a pouco, o lugar do gênero épico na literatura. As epopéias clássicas, contudo, são de fundamental importância para o conhecimento da trajetória histórica dos valores sociais, éticos e políticos da humanidade.
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