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PONTO LITERÁRIO

   

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Poesia

Arte de dispor as palavras de modo a construir enunciados que chamem atenção por si mesmos em seu aspecto externo. Mais antiga forma de criação literária.

Concretismo ; Drummond de Andrade, Carlos ; Hispano-americana, literatura ; Metaplasmo ; Popular, literatura ; Portuguesa, literatura ; Tradução

v. tb. Acróstico; Auden, W. H.; Balada; Baudelaire, Charles; Burns, Robert; Cancioneiro; Cardenal, Ernesto; Cavalcanti, Guido; Dante Alighieri; Darío, Rubén; Divina comédia; Dolce stil nuovo; Elegia; Éluard, Paul; Empson, William; Epitalâmio; Epopéia; García Lorca, Federico; Gesta; Goliardos; Hermetismo (literatura); Keats, John; Lezama Lima, José; Mallarmé, Stéphane; Ode; Parnasianismo; Parra, Nicanor; Petrarca, Francesco; Provençal, literatura; Rima; Romanceiro; Simbolismo; Soneto; Trovador; Versificação; Virgílio

Certamente mais antiga que qualquer um dos gêneros literários da prosa, a poesia acumulou, por muito tempo, as funções que mais tarde se dividiram entre o romance, o conto, o drama, a própria poesia e outras formas de expressão verbal. Ligada, na origem, à transmissão oral, seus recursos, antes de reforçarem uma intenção estética, devem ter sido criados com o intuito prático de facilitar a memorização.
Poesia é a arte da palavra manifestada numa linguagem em que a sonoridade e o ritmo predominam sobre o conteúdo. A linguagem poética consiste num desvio deliberado da forma da língua corrente que recorre à repetição de uma cadência rítmica, de sons, de rimas e de estruturas sintáticas. A cadência e a medida das palavras determinam a configuração dos diversos tipos de versos ou ritmos empregados na literatura poética de cada língua. O verso, linha constitutiva do poema, e o lirismo, evocação de sentimentos subjetivos, são as características mais tradicionais da linguagem poética.
Da primazia dos aspectos formais que se verifica na poesia decorre um de seus traços mais importantes e definidores: a literalidade, ou seja, o fato de que ela deve sempre ser reproduzida da maneira como foi escrita. Uma conversa entre duas pessoas não precisa necessariamente ser reproduzida em seus termos precisos, e o mesmo se pode dizer de um artigo científico, do qual o que importa é a reprodução do conteúdo. Quando se quer transmitir um poema, no entanto, não se pode alterar sua forma, pois essa forma é o que ele tem de mais importante. Isso explica por que a tradução de um artigo técnico ou científico pode ser feita com certa liberdade de interpretação, com a preocupação maior centrada no conteúdo, enquanto na poesia a preocupação maior é a preservação da forma original.

Procedimentos específicos - A poesia é um ato criador individual que tem base na tradição poética e na língua empregada para a comunicação geral em cada época. Normalmente, as aproximações e distanciamentos da língua poética em relação à língua comum produzem-se quando se busca confrontá-la com a tradição poética existente, o que caracteriza vários momentos na história da literatura. Assim, por exemplo, enquanto no barroco se dá um distanciamento flagrante, no neoclassicismo, período imediatamente posterior, se propõe um grau maior de aproximação.
Assim, pode-se dizer que, num poema, superpõem-se duas linguagens cifradas: a da língua natural e a do código estético. Esta segunda linguagem tem como objetivo pôr em relevo o valor autônomo do signo lingüístico e nela se perde o caráter automático que tem a linguagem da comunicação geral. Ao mesmo tempo, a obra poética se apresenta como uma estrutura funcional, pois tudo nela se inter-relaciona. Seus elementos estão a serviço de uma estrutura, e não podem ser compreendidos fora dela.
O princípio mais importante que afeta o verso é o da repetição, que serve para destacar o signo lingüístico. Esse princípio se evidencia, por exemplo, no ritmo, que é o valor mais importante do verso, e a que se ligam outros elementos formais, como a rima, a aliteração (repetição de um mesmo fonema, como em "rimos dos remos e dos rumos") etc. A maneira de conseguir o efeito rítmico varia de uma literatura para outra e depende das características da língua e da tradição literária. Na fase mais arcaica de muitas literaturas, por exemplo, na poesia germânica primitiva, eram certos tipos de aliteração que marcavam o ritmo. A poesia das línguas clássicas européias, o latim e o grego, repetia diversos tipos de pés, unidades rítmicas formadas por uma sucessão determinada de sílabas longas e breves.
A rima, coincidência de terminação em dois ou mais versos, é um recurso relativamente recente. Surgiu na Idade Média e formou-se, originalmente, a partir da aliteração. Seu efeito sonoro é, em geral, um tanto pobre e monótono, servindo sobretudo como sinal demarcativo do verso. Outro procedimento usado para estabelecer o ritmo é o de dispor as sílabas acentuadas e não acentuadas de acordo com um esquema fixo. Isso foi muito freqüente no Brasil entre os poetas românticos. No exemplo que se segue, um trecho famoso de Gonçalves Dias, a cada sílaba acentuada seguem-se duas átonas: "Tu choraste em presença da morte? / Na presença de estranhos choraste? / Não descende o cobarde do forte. / Pois choraste, meu filho não és!".
Uma forma especial de construir o ritmo se realiza no verso livre, que o americano Walt Whitman começou a usar em meados do século XIX, e que se caracteriza por não estar submetido às determinações da rima e da métrica da poesia tradicional. Nesse tipo de composição, o ritmo se acentua sobretudo mediante uma repetição muito marcada de estruturas sintáticas, de vocabulário ou de paralelismos, que conferem maior mobilidade ao poema. Em alguns poetas, como o francês Saint-John Perse, o verso, ou o equivalente a suas unidades rítmicas, apresenta-se encadeado em textos que, na aparência imediata, não diferem da prosa.
Outras figuras de retórica não necessariamente ligadas ao fenômeno da repetição cumprem também a função de produzir o distanciamento e, dessa maneira, chamar a atenção para a linguagem em si. É o caso, por exemplo, do hipérbato (inversão da ordem direta das palavras), muito usado em todos os períodos da literatura, e das figuras denominadas tropos, como a metáfora e a metonímia, que permitem mudar ou transfigurar o significado de uma palavra. O próprio vocabulário serve para provocar o distanciamento. Nos domínios da poesia, é bem conhecida a proliferação de arcaísmos, de sons exóticos e rebuscados, ou do oposto, neologismos e invenções léxicas.
Naturalmente, os aspectos formais não representam as únicas possibilidades do trabalho poético. Para criar um poema, é fundamental a inspiração do autor, sua capacidade de expressar suas emoções, sua visão da realidade ou sua postura sob uma forma que busca exteriormente um fim estético. Uma metáfora (substituição de um termo por outro de sentido figurado), ou um epíteto (palavra ou frase que designa indiretamente algo ou alguém), por exemplo, não só produzem o efeito de distanciamento característico da poesia, como também servem ao poeta para expressar ou sugerir sua visão íntima e pessoal das coisas.
Para entender a poesia produzida em cada período da história da literatura, é fundamental conhecer, além de seus componentes formais, a atitude que predominava em relação ao mundo. Assim, na Idade Média, o tema da relação dama-cavaleiro se dava com um caráter quase de vassalagem, da mesma forma que proliferavam temas religiosos e uma grande riqueza simbólica. Assim também a harmonia procurada pelo homem do Renascimento teve conseqüências em sua poesia; já no barroco, ao contrário, encontraram eco o desencanto pela vida e o pessimismo.
A fria poesia do neoclassicismo, influenciada pelo Iluminismo, buscava adequar-se ao preceito de que tudo deve subordinar-se à razão. Os poetas românticos, em seguida, expressaram as grandes ânsias de liberdade peculiares a sua época. Na segunda metade do século XIX, dois movimentos tiveram grande importância para o desenvolvimento ulterior da poesia: o parnasianismo, que exacerbou o culto da beleza formal, e o simbolismo, para o qual a natureza oculta das coisas só podia ser revelada por meio de símbolos.
No século XX, os movimentos poéticos mais importantes tiveram caráter de vanguarda, como o surrealismo e o dadaísmo. Originados, em grande parte, numa mudança radical da concepção do homem e do universo, para o que contribuíram a nova teoria da relatividade e os trabalhos de Sigmund Freud sobre o inconsciente, algumas correntes vanguardistas procederam à mais drástica experimentação com a forma, que ficou completamente dissociada do conteúdo.

Verso e prosa - Está plenamente demonstrado que o verso é mais antigo do que a prosa, a qual não deve confundir-se, como freqüentemente se faz, com a linguagem falada. Esta, por sua finalidade e características, difere muito tanto da linguagem literária da poesia como da prosa. A oposição entre prosa e verso parte do fato de que a prosa se concentra no conteúdo e, portanto, busca basicamente a clareza expositiva, enquanto na poesia a forma predomina sobre o conteúdo, e seu principal objetivo é a busca da beleza para a produção de prazer estético. A prosa preocupa-se antes de tudo com a idéia, embora não com sua reflexão. Sua essência é a análise, ou seja, a decomposição da idéia em todos os seus elementos. Em conseqüência, a linguagem da prosa procura ser lógica, coerente, e distinguir o que se sabe do que se imagina. A poesia, ao contrário, atua por meio de sínteses intuitivas e pretende comover o leitor ou ouvinte.
Outro princípio de diferenciação observa-se na utilização dos adjetivos. Na poesia são freqüentíssimos os adjetivos "não pertinentes" -- como na expressão "palácios cariados" (João Cabral de Melo Neto), ou que em seu significado não qualifiquem os substantivos -- como em "dúbios caminhantes" e "linhos matinais" (Cesário Verde) --, que a prosa, em geral, rejeita. Também serve de exemplo o uso da coordenação, que na poesia pode ser aparentemente inconseqüente, como nos versos de Drummond: "Pensando com unha, plasma, / fúria, gilete, desânimo." A inconseqüência não só se dá na coordenação, mas, em geral, na própria sucessão das idéias. Na prosa, ao contrário, espera-se que cada idéia apresentada se articule com as necessidades do discurso.

Gêneros poéticos - A poesia pode apresentar-se em composições muito variadas. Os antigos retóricos gregos dividiram-na em épica, lírica e dramática, divisão que, embora um tanto rígida, ainda é aceitável.
A poesia épica, muito antiga, canta as façanhas de um herói ou de uma coletividade. As baladas ou cantos populares agrupam-se normalmente em círculos temáticos e, em muitas ocasiões, unificam-se na forma de um longo poema narrativo em que se simbolizam as aspirações e conquistas de uma raça ou povo. Esse tipo de poema recebe o nome de epopéia e exemplifica-se em obras como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, ou o Mahabharata, da literatura hindu. Uma espécie muito importante de poema épico é a das canções de gesta medievais, voltadas para a figura de um herói nacional. À épica culta pertencem os poemas criados por um autor individual e que se acham desvinculados da tradição popular, como a Eneida, de Virgílio, ou Os lusíadas, de Camões.
A lírica, que em suas origens era cantada, é o gênero mais subjetivo e o que reúne com maior freqüência as peculiaridades da poesia. Em geral, os poemas líricos são breves. Em seus versos o poeta quase sempre procura expressar emoções e o cerne de sua experiência pessoal. Inclui-se na lírica a mais típica "poesia popular", talvez a manifestação literária mais antiga.
A poesia dramática é a das peças teatrais, que, durante muito tempo, foram escritas em verso. As paixões humanas constituem sua fonte de inspiração e costumam ser expressas na forma de diálogos e monólogos.
Podem distinguir-se outros gêneros poéticos, dentre os quais um dos mais importantes é o da poesia didática, que apareceu como uma derivação da épica nos tempos clássicos. Nesse gênero, a poesia é utilizada como meio para expor com beleza temas científicos, técnicos, ou doutrinas filosóficas e religiosas. Aqui se encontram obras como De natura deorum (Sobre a natureza dos deuses), de Lucrécio, poeta romano do século I a.C., que o emprega para expor a doutrina do epicurismo. Cabe incluir também na poesia didática as fábulas ou as formas populares, como os refrães e adivinhações.

Evolução histórica

Na evolução cultural das civilizações grega e latina, que formam a base da cultura ocidental, a poesia, no princípio essencialmente narrativa, assumiu características definidas. Foi nesses períodos clássicos que surgiram as primeiras formas fixas de poesia, em seus gêneros épico, lírico, dramático e didático.
Na poesia épica (do grego épos, "canto", "narrativa" ), o tom eloqüente dos versos (hexâmetros) e a duração das vogais são notórios e parecem indicar suas raízes primitivas, como se tivessem sido criados para serem ditos em voz alta. O estudo de textos e fatos da época levou os historiadores a concluírem que esse poema só poderia ser uma suma popular transmitida oralmente de geração a geração, num processo de que participaram sucessivos poetas. Com a escrita, a tradição pôde passar a ser reunida por um autor, numa obra.
A poesia lírica nasceu da fusão do poema épico com o instrumento que o acompanhava, a lira. As formas foram diversificando-se a seguir. Surgiram outras variedades, como a ode, a elegia, os epitáfios, as canções, as baladas e outras desenvolvidas posteriormente, como o madrigal e o soneto.
Safo, poetisa do século VI a.C., inspirou-se nas musas para escrever elegias, hinos e epitalâmios (cantos nupciais). Píndaro foi o primeiro grande criador de odes, forma poética que ainda conservava a narrativa heróica, embora já admitisse uma voz pessoal, subjetiva, que retratava as experiências do próprio autor. Simônides de Ceos foi grande criador de epitáfios, poesia em memória dos heróis mortos. Outra forma lírica derivada é a poesia bucólica, de que Teócrito, no século III a.C., foi grande cultor. 0O traço primordial da poesia lírica, na época, era a maior liberdade quanto ao número de sílabas dos versos. Essa forma foi mais trabalhada pelos poetas latinos, inspirados nos gregos.
A poesia dramática é mais um desdobramento da narrativa épica que, no entanto, transfigurava os narradores nos personagens da ação teatral. O sabor lírico aparecia na exposição dos estados emotivos dos personagens. As peças de Sófocles, Ésquilo e Eurípides, os três grandes poetas dramáticos da antiguidade, até hoje são representadas em todas as partes do mundo. Nos tempos atuais, o teatro poético ainda é uma forma utilizada por escritores como Paul Claudel e T. S. Eliot. José de Anchieta, em sua campanha de catequese no Brasil do século XVI, usou um subgênero dramático, o auto sacramental, como forma de difusão do cristianismo entre os indígenas.
Há vestígios da cultura latina, muito influenciada pela literatura grega, em todo o Ocidente. Virgílio, autor do poema Eneida, é o épico por excelência dessa tradição, embora apresente também uma veia lírica, assim como as Metamorfoses de Ovídio. Plauto e Terêncio adaptaram os dramas gregos, enquanto Horácio, Pérsio e Juvenal adotaram a sátira, uma nova modalidade de expressão que também fundia as técnicas épicas e líricas.
Outras formas fixas. Com o encerramento do ciclo histórico greco-romano, o mundo passou por acentuadas transformações sociais. Por um processo natural resultante do surgimento de novas nacionalidades, surgiu, na Idade Média, a necessidade de exprimir a alma popular, enquanto a poesia culta se refugiou nos mosteiros.
As canções populares que surgiram então, entre as quais a narrativa em versos, desenvolveram-se até aparecer a poesia trovadoresca, constituída de poemas de amor que não escondiam sua origem popular, mesclada à herança das formas eruditas. Entre os séculos XII e XIV, a Europa foi invadida por subgêneros poéticos de feição popular, que derivavam diretamente das muitas formas de poesia lírica greco-romana. A poesia mantinha seu substrato narrativo, em poemas longos ou curtos. A partir do século XIV, porém, os homens de letras passaram a buscar a revitalização da antiguidade clássica, e escreveram poemas épicos, líricos e satíricos.
Nessa época, erroneamente considerada obscura, surgiu Dante Alighieri. Escreveu numa língua que não era o latim e que marchava para estratificar-se: o italiano. O poeta aproveitou certa modalidade de poesia nascente, entre muitas outras surgidas nessa fase, para criar La vita nuova (A vida nova), obra em que trabalha o soneto, ao lado de passagens em prosa, para falar de amor. O soneto, porém, só veio a ser sistematizado e difundido em toda a Europa por Petrarca, que exerceu forte influência no renascimento literário, entre os séculos XVI e XVII.
Os dois grandes poemas épicos posteriores aos tempos de Grécia e Roma foram A divina comédia (c. 1307-1321) de Dante, e Os lusíadas (1572), de Camões, poeta que também usou o soneto, a partir do modelo petrarquiano. Outros poetas tentaram a epopéia, de inspiração homérica ou camoniana, como o francês Ronsard, no século XVI, e o inglês Milton, no século XVIII. Os italianos Ariosto e Tasso são autores de outros grandes poemas épicos, respectivamente Orlando furioso e Gerusalemme liberata (Jerusalém libertada). Outras formas renascentistas são as gestas A canção de Rolando, na França, El cantar de mio Cid, na Espanha, e Canção dos nibelungos, na Alemanha.
Ainda como sintoma de revitalização da poesia clássica surgiu Shakespeare, poeta dramático que transfigurou e engrandeceu a tragédia com seu gênio. Seus personagens situam-se numa dimensão humana e social de aguda verossimilhança, embora haja uma constante evocação do sobrenatural, inspirada mais nas crendices européias que na mitologia greco-romana. Shakespeare também usou com mestria o soneto, imprimindo-lhe qualidades inconfundivelmente suas.

Poesia romântica - Entre o fim do século XVIII e início do XIX surgiu o movimento romântico. O termo romantismo vem do século XVII e tem ligação estreita com os romances medievais, que eram narrativas, em verso ou prosa, de aventuras e de amor. Apesar da preocupação em fugir aos modelos clássicos, os poetas românticos jamais se afastaram da poesia lírica, que passou à exaltação exacerbada de sentimentos e paixões. Goethe desfraldou a bandeira do movimento na Alemanha, mas seus princípios também foram definidos e respeitados na França, na Grã-Bretanha, em Portugal e no Brasil, na Espanha e nos países hispano-americanos, e em muitas outras regiões do mundo.
A face mais positiva dessa escola foi a que se voltou para a poesia popular e permitiu inaugurar uma nova concepção da forma, mais livre em sua elaboração técnica. Surgiram novas medidas para o verso. A partir de Victor Hugo, que também contribuiu para fixar e ampliar as diretrizes da nova escola, a poesia dramática perdeu boa parte de seus traços originais e passou a ser normalmente escrita em prosa. Apesar de suas características afins em todos os países, o romantismo não foi uniforme no tempo. Alguns poetas inseriram recursos clássicos em seus poemas românticos, como o fizeram Byron, na Grã-Bretanha, e Gonçalves Dias, no Brasil.
Na segunda metade do século XIX, surgiram na França as escolas parnasiana e simbolista. A primeira procurava restabelecer o rigor da forma, que o movimento romântico deixara em segundo plano. O soneto, abandonado no período anterior, reapareceu, e revivificou-se mais uma vez a poesia lírica. Os simbolistas, ao contrário, irromperam com um espírito que manteve afinidades com o do romantismo e apenas aparentemente reduziram a preocupação com a forma, pois continuaram a usar métrica e rima. Parnasianos e simbolistas, porém, coexistiram com autores pré-modernos como Baudelaire, Nerval, Verlaine e Rimbaud na França, Poe e Whitman nos Estados Unidos.

Poesia moderna e fim das escolas - No início do século XX, a poesia passou por outras alterações formais. Os poetas, de um modo geral, abandonaram a filiação a escolas e passaram a responsabilizar-se por suas próprias concepções e técnicas. Apesar disso, na Itália, Marinetti lançou as bases do futurismo, que serviu para chamar a atenção dos escritores para muitas das mudanças do século.
O verso branco, sem rima, reapareceu com pretensões revolucionárias, desta vez sem métrica ou ritmo obrigatórios. Na França, Mallarmé foi dos primeiros a abolir a rima, a métrica e até mesmo a sintaxe convencional do verso. Na língua inglesa, as revoluções ainda do século XIX -- tanto de Whitman como de Gerard Manley Hopkins, na liberdade rítmica, e de Poe, na racionalidade e concepção do poema -- marcaram a fundo os caminhos da criação poética no século XX, como os de Dylan Thomas, de Wystan Hugh Auden e T. S. Eliot, ou de Ezra Pound, William Carlos Williams e e. e. cummings.
Fatos semelhantes ocorreram na Itália de Montale e Ungaretti, na Alemanha de Rilke e Georg Trakl, na Rússia de Maiakovski, em Portugal -- onde o gênio múltiplo de Fernando Pessoa é, em uma de suas faces (Álvaro de Campos), de influência whitmaniana, e em outra (Ricardo Reis) recupera um filão de lirismo que remonta a Horácio --, na Espanha e na América espanhola, no Brasil do modernismo e em dezenas de outros países de tradição literária.

Novas tendências - A poesia moderna se caracteriza por uma concepção espacial muito específica. Ao quebrar graficamente o verso, um poeta como Mallarmé verificou que o espaço em branco da página podia ser usado não só como simples suporte gráfico, mas também, e principalmente, como material significativo. Marinetti, em seus influentes desafios na década de 1900, não ignorou essas novas possibilidades. Apollinaire também experimentou, cerca de dez anos depois, o rompimento com o discurso lógico-discursivo e, ao integrar o grupo de poetas chamados dadaístas, usou o caligrama, texto de palavras e letras dispostas em forma de figuras que representassem o motivo central. O emprego da página e dos meios gráfico-visuais apareceu, aproximadamente na mesma época, nas obras do russo Maiakovski e do português Mário de Sá-Carneiro.
Ezra Pound, ao iniciar a série de seus Cantos (1925-1948), pôs em foco, como elemento poético, o ideograma chinês estudado por Ernest F. Fellonosa. O processo do ideograma, numa língua sintética como a chinesa, tem por base a fusão, num só signo, de vários elementos significantes, e a tentativa de aplicar esse princípio às línguas ocidentais levou à fusão de palavras e às aglutinações e montagens vocabulares. Desse modo o poeta poderia, em linguagem supostamente mais concretizada, transmitir o máximo com o mínimo.
Até meados do século XX (seus Poems datam de 1922-1954), e. e. cummings igualmente aboliu o verso e passou a usar letras minúsculas e maiúsculas em busca da visualização, também figurativa, dos objetos e motivos poéticos recriados. Suas preocupações incluíam a criação de nova ortografia para a poesia. Paralelamente, as experiências de poesia sem verso continuaram como sintoma da variada busca de uma nova linguagem poética. Nas últimas décadas do século XX, novas tendências manifestaram-se. Algumas vinculam a poesia a novas tecnologias e meios de comunicação. A experimentação de veículos como o poema cartaz, o poema postal, o holopoema (poema em holografia), entre outros, representam tentativas de adequar a arte poética a um mundo em constante mutação.
Concretismo; Epopéia; Linguagem, figuras de; Parnasianismo; Rima; Simbolismo; Soneto; Versificação

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