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RESENHA

1. ORIENTAÇÕES PARA REALIZAR RESENHAS (DESCRITIVA E CRÍTICA)

1.1 O QUE É RESENHA?

    A resenha, também conhecida como resumo crítico, é um tipo de trabalho acadêmico que para você fazê-lo, será necessário obter um conhecimento aprofundado do assunto que será abordado. Somente o conhecimento profundo permitirá a você estabelecer comparações e fornecerá a maturidade intelectual necessária para a emissão de qualquer julgamento de valor, ou seja, dizer se concorda ou discorda com as considerações apresentadas pela obra e texto a ser resenhado.

    Platão & Fiorin, em Para entender o texto (1990:426), esclarecem que o objeto de uma resenha pode ser:

  • "Um acontecimento qualquer da realidade (um jogo de futebol, uma comemoração solene, uma feira de livros) ou
  • Textos e obras culturais (um romance, uma peça de teatro, um filme)"

    Os autores citados esclarecem que qualquer objeto a ser resenhado estará sujeito ao olhar e interesse prévio de seu resenhador. O assunto a ser tratado na resenha dependerá de quem estará resenhando e com que interesse. Um exemplo claro apresentado pelos autores para esclarecer o que estamos dizendo é:

    "Imaginemos duas resenhas distintas sobre um mesmo objeto, o treinamento dos atletas para uma copa mundial de futebol: uma resenha destina-se aos leitores de uma coluna esportiva de um jornal; outra, ao departamento médico que integra a comissão de treinamento. O jornalista, na sua resenha, vai relatar que um certo atleta marcou, durante o treino, um gol olímpico, fez duas coloridas jogadas de calcanhar, encantou a platéia presente e deu vários autógrafos. Esses dados, na resenha destinada ao departamento médico, são simplesmente desprezíveis." (PLATÃO & FIORIN, 1991:426)

    Para os autores citados, "a resenha pode ser puramente descritiva, isto é, sem nenhum julgamento ou apreciação do resenhador, ou crítica, pontuada de apreciações, notas, e correlações estabelecidas pelo juízo crítico de quem a elaborou" (1991:416). Vejamos como os autores orientam sobre a possibilidade de estruturar cada uma delas:

  • RESENHA DESCRITIVA

-PARTE DESCRITIVA:

a) Nome do autor ou autores
b) Título completo e exato da obra ou artigo;
c) Nome da editora – caso a obra faça parte de uma coleção, você deverá mencioná-la;
d) Lugar e data da publicação;
e) Número de volumes e páginas;
f) Descrição sumária da estrutura da obra ( divisão em capítulos, assunto dos capítulos, índices, etc)
g) Se obra estrangeira, mencionar a língua da versão original e o nome do tradutor (se tratar de tradução)

-RESUMO DO CONTEÚDO DA OBRA:

a) Assunto tratado e ponto de vista adotado pelo autor (perspectiva teórica, gênero, método, tom, etc);
b) Resumo que apresenta os pontos essenciais do texto e seu plano geral.

    VEJAMOS EXEMPLOS DE RESENHA DESCRITIVA:

    Izidoro Blikstein, autor de Técnicas de comunicação escrita, publicada pela editora ática (coleção princípios) na 18 ed., em São Paulo, no ano de 1999, possui 96 páginas. A obra está estruturada em cinco partes, sendo que na primeira o autor apresenta a história de um gerente que deixa um bilhete a sua secretária; na segunda apresenta os erros cometidos pelo gerente ao escrever o bilhete, na terceira esclarece sobre a importância dos elementos da comunicação na produção de um texto; na quarta aborda sobre a persuasão para um bom entendimento da comunicação, na quinta discute sobre a eficácia da comunicação escrita. Termina com a apresentação do vocabulário crítico e a bibliografia comentada.

    POR QUE (NÃO) ENSINAR GRAMÁTICA NA ESCOLA
    Sírio Possenti

     A primeira parte deste livro expõe questões fundamentais relativas à natureza e ao aprendizado das línguas, destacando os fatores internos da variação lingüística, a natureza das gramáticas "naturais", dos erros dos aprendizes ou falantes, e aspectos do funcionamento da língua ligados aos contextos e valores sociais. Defende-se que o aprendizado de uma língua é um processo relativamente complexo, mas, ao mesmo tempo, natural; que a escola deve privilegiar a escrita, mas que características da oralidade são cruciais para compreender o processo geral.
    Na segunda parte, são expostos e exemplificados os conceitos de gramática normativa, descritiva e internalizada, e se apresentam algumas sugestões práticas de como trabalhar em sala de aula a partir da produção do aluno.

 

  • RESENHA CRÍTICA

     Quando o resenhador comentar, opinar, julgar, fazer comparações, dizer sobre a relevância da obra em relação a outras que tratam do mesmo assunto estará produzindo uma resenha crítica. Normalmente, quem escreve uma resenha crítica é um professor e especialista de alguma área. Este tipo de texto é solicitado em cursos de pós-graduação, mas já percebemos que há professores de graduação solicitando a produção de resenha aos seus alunos. Por isso, incluímos a discussão desse tipo de texto em nossas aulas.
    Quanto à estruturação da resenha crítica, Platão & Fiorin, dizem que podem constar todos os dados apontados no item Resenha Descritiva e acrescentar comentários e julgamentos do resenhador sobre as idéias do autor, o valor da obra, etc. Resumindo, na resenha crítica temos:

a) Uma parte descritiva que seria o relato das propriedades de uma obra e/ou objeto;
b) Uma parte narrativa que seria o resumo da obra; e
c) Uma parte dissertativa que seria a avaliação da obra, o julgamento da obra.

- ESTRUTURA DO TEXTO

a) Dar um título à resenha crítica; e
b) Acrescentar dados bibliográficos da obra.

 

    VEJAMOS EXEMPLOS DE RESENHA CRÍTICA:

 1. LIVRO

NO UNIVERSO DAS IDÉIAS
Alethea Muniz
                               Da equipe do Correio

     Se você se interessa por filosofia, mas não sabe por onde começar a viagem pelo universo das idéias, eis a dica: História do Pensamento Ocidental, escrito pelo britânico Bertrand Russell (1872-1970), lançamento da Ediouro Publicações. A credibilidade da obra começa pela assinatura do autor, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1950 e respeitado lógico matemático, fundador da filosofia analítica junto com Kurt Gödel.
    Russell já tinha publicado os dois volumes da História da Filosofia Ocidental (1945) quando decidiu escrever História do Pensamento Ocidental. São obras diferentes, embora tratem do mesmo assunto. Enquanto a primeira esmiuça em dois tomos (da antigüidade aos padres da primeira filosofia católica; e da reforma protestante ao século 20) a filosofia ocidental, a Segunda apresenta uma espécie de panorama das idéias ocidentais, a partir da base anterior.
    Uma das qualidades do autor é o didatismo. Não se trata de exposição chata, com esquemas que subestimam a capacidade do leitor, mas de contextualizar cada pensador no seu tempo. E relacioná-lo com acontecimentos históricos e sociais, da maneira mais clara possível. A linguagem é simples e não se detém em extensas explicações conceituais.
    Boa parte do livro é dedicada aos gregos e, ao fazer isso, o autor tinha plena consciência de que poderia ser bastante criticado pela "generosidade" com eles. Mas defende que está ali a base do pensamento. Textos de Platão e Aristóteles são tratados pontualmente - a Poética, por exemplo, ganhou três páginas. O leitor dificilmente se surpreenderá com a seleção de autores listados, pois Russell não foge do cânone filosófico do período entre os pré-socráticos e Wittgenstein.
    Ao percorrer as páginas de História do Pensamento Ocidental, deve-se ter clara a idéia de que se trata e um analítico fazendo história da filosofia. Essa informação é fundamental para entender especialmente a parte dedicada aos existencialistas, a quem Russell acusa de tentar passar por lógicas as observações psicológicas.
    A edição apresenta uma série de diagramas e imagens "úteis à discussão de idéias ou abstrações menos familiares", mas na realidade pouco dialogam com o texto ao lado. São dispensáveis à compreensão do conteúdo, embora de inegável valor estético. De qualquer maneira, está feito o convite. Como disse Russell se o livro for suficiente para o leitor se aprofundar em qualquer um dos temas, seu propósito terá sido alcançado.

(História do Pensamento Ocidental - De Bertrand Russell. 463 páginas. Lançamento Ediouro Publicações R$ 29,90)
Fonte: Correiobraziliense, 17 de maio de 2001

 

2. PROJETO DE LEI DO DEPUTADO ALDO REBELO

O DEPUTADO E A LÍNGUA

MARCOS BAGNO - Publicado no Jornal de Brasília em 9 de janeiro de 2000.

     O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB/SP) deu entrada na Câmara dos Deputados num Projeto de Lei que "Dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa". A leitura do texto do projeto deixa bem claro que o grande alvo de ataque do autor são os chamados estrangeirismos, isto é, termos e expressões de outras línguas que estão sendo cada vez mais empregados na língua falada e escrita no Brasil. Mais precisamente, concentra-se nas palavras de origem inglesa. O texto mereceria uma demorada análise, que não podemos fazer aqui. Mas, antes de tudo, para definição de posições, é importante deixar claro que esse projeto já encontrou um elevado grau de rejeição por parte da maioria dos lingüistas e pesquisadores engajados na investigação dos fenômenos lingüísticos do Brasil. Atenção: escrevi lingüistas e pesquisadores, isto é, pessoas que analisam a língua de acordo com teorias científicas consistentes, com base em coleta de dados da língua realmente utilizada pelos brasileiros, coleta feita segundo metodologias rigorosas, diversas vezes testadas e aprovadas. Não escrevi gramáticos tradicionalistas, muito menos apresentadores de programas de televisão sobre português certo e errado, nem tampouco autores de colunas de jornal e revista que dão "dicas" de "bom" português. Esses são meros repetidores de uma doutrina gramatical mumificada, repleta de inconsistências e incoerências, que dita regras para uma "língua" que nenhum ser humano de carne e osso fala nem escreve, e cujo único efeito comprovado, do ponto de vista pedagógico, é a criação de uma tremenda insegurança por parte dos brasileiros escolarizados na hora de se manifestar oralmente ou por escrito em situações mais ou menos formais, além de provocar uma profunda aversão dos alunos pelo estudo da língua na escola.

     O que mais surpreende é que esse projeto, embora de autoria de um membro do PCdoB, reproduz o discurso mais conservador, elitista e reacionário no que diz respeito à língua. Basta dizer que, em sua justificativa, o deputado cita como "um dos nossos maiores lingüistas" o professor Napoleão Mendes de Almeida, que durante muitas décadas, até morrer em 1998, defendia idéias como: "É português estropiado que no Brasil se fala", idioma que para ele equivalia a uma "língua de cozinheiras, babás, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos". Sua visão dos fenômenos lingüísticos era profundamente autoritária, preconceituosa e toda voltada para o passado da língua. Além disso, o título de "lingüista" decerto não lhe agradaria, porque para ele a ciência lingüística só servia para "fixar inúteis, pretensiosas e ridículas bizantinices".

     O projeto também faz referência elogiosa à lei francesa de 1975 sobre os anglicismos que, como toda legislação desse tipo, não teve nem de longe o efeito esperado, sendo, aliás, alvo de escárnio por parte dos franceses, que cada dia mais recheiam sua fala de termos oriundos do inglês. É bom lembrar que essa lei francesa foi elaborada por um deputado da direita...

     A língua tem esta qualidade maravilhosa de ser, ao mesmo tempo, um patrimônio público e um bem individual. Se o projeto do deputado Rebelo se limitasse a (tentar) conter o uso de estrangeirismos nas manifestações lingüísticas oficiais, seria possível talvez apoiá-lo. Afinal, se a Constituição diz que o português é a língua oficial do Brasil, tudo aquilo que tivesse caráter oficial deveria, em princípio, vir redigido exclusivamente em português. Assim, é bastante razoável que o deputado critique a expressão "Personal Banking" estampada nos caixas eletrônicos do Banco do Brasil espalhados em todo o território nacional (embora esse banco não seja rigorosamente oficial). Mas mesmo aí seria difícil delimitar o que é exclusivamente português — a palavra cheque, por exemplo, que parece tão nossa, é inglês "puro", inclusive na grafia... Haveria sucesso em substituí-la por um "equivalente" em nossa língua?

     No que é oficial, pode até ser. No entanto, querer aplicar multas ao cidadão que se servir de expressões estrangeiras é de um profundo autoritarismo só comparável ao da Igreja católica, que sempre quis controlar o pensamento de seus fiéis por meio da confissão de pecados nem sequer cometidos, apenas imaginados, e da imposição de penitências. A língua é usada, antes de mais nada, para a comunicação do indivíduo consigo mesmo, é o veículo do pensamento (ou a matéria mesma de que ele se compõe), e as relações entre pensamento e linguagem despertaram, ao longo deste século, o interesse de inúmeros lingüistas, psicólogos, antropólogos, biólogos etc. A quem confessarei meu pecado por ter pensado em comer num self-service? Ou por ficar ansioso, durante uma palestra, pelo coffee-break? Ou por gostar de viajar de van?

     A língua que cada um de nós fala é elemento essencial de nossa própria identidade individual, daquilo que somos. Querer legislar sobre o uso individual da língua, além de autoritário, por querer interferir naquilo que a pessoa é como ser humano, é perfeitamente inútil, já que não se pode legislar sobre o que uma pessoa vai ou não pensar. É querer transformar em crime o que a pessoa é e o que ela pensa.

     A luta contra os estrangeirismos é uma bandeira que, de tão velha, já está mais do que esfarrapada. No final do século passado, por exemplo, o filólogo português Cândido de Figueiredo esbravejava contra o "enxerto da francesia", contra a "malária" representada pela "invasão" de termos e expressões de origem francesa no português, prevendo, como se faz hoje, a ruína e até o possível desaparecimento da língua portuguesa! Apesar da profecia apocalíptica dele e de outros, o português continuou vivo e dinâmico, usado por cada vez mais gente, sendo a sexta língua mais falada no mundo todo. Primeiro foi o francês, agora é o inglês. Mudou a língua "invasora", mas o discurso purista permanece o mesmo.

     O projeto diz que "nosso homem do campo" não compreenderá o termo printar, porque é um verbo formado com base no inglês. Mas será que esse mesmo camponês entenderia o verbo imprimir? A compreensão ou não de uma palavra nada tem a ver com sua origem, com sua etimologia, com a língua de onde ela procede: tem a ver com a coisa ou o fato que ela designa, com o mundo de referências ao qual ela remete. Nem o brasileiro mais culto e bem-informado poderá entender termos que não façam parte do seu universo de referências. Só quem conhece o mundo dos navios a vela, por exemplo, saberá o que é o estai da mezena do joanete, a sobregatinha, a giba, a ostaga e a draiva, entre outros termos igualmente poéticos e estranhos, mas que são português "puro". Para muita gente culta, eles soam mais estrangeiros do que drive, reset, delete, insert ou download... O nosso camponês, por outro lado, se for ligado no esporte mais popular do país, saberá perfeitamente o que é um pênalti, um gol e um drible, termos de origem inglesa que ficaram quase inalterados no português do Brasil, bem como o nome do próprio futebol.

     Outra coisa importante é lembrar que os estrangeirismos não alteram as estruturas da língua, a sua gramática. Por isso não são capazes de destruí-la, como juram os conservadores. Os estrangeirismos contribuem apenas no nível mais superficial da língua, que é o léxico. Um exemplo: "O office-boy flertava com a baby-sitter no hall do shopping-center". Embora os substantivos sejam todos de origem inglesa (e a raiz do verbo também), a sintaxe e a morfologia são perfeitamente portuguesas, como se verifica pela flexão do verbo, pelas preposições e pelos artigos. A ordem das palavras no enunciado — primeiro o sujeito, depois o verbo, depois o objeto e por fim os adjuntos adverbiais — corresponde integralmente à ordem normal da sintaxe portuguesa.

     A história, como em muitos outros campos, nos dá boas lições sobre os fenômenos relativos à língua. É curioso pensar, por exemplo, que os livros bíblicos que compõem o Novo Testamento foram escritos em grego, embora seus autores fossem todos judeus que viviam em terras sob o domínio político de Roma. Por que não escreveram os evangelhos, as epístolas e o Apocalipse em hebraico, sua língua tradicional, ou em aramaico, sua língua familiar, ou ainda em latim, língua oficial do Império a que estavam submetidos? Porque, naquela época, o grego era a grande língua de cultura: quem quisesse transmitir uma mensagem capaz de alcançar o maior número possível de ouvintes e leitores teria de fazer isso em grego. É o mesmo que acontece hoje em dia com o inglês. Não adianta um importante cientista brasileiro fazer uma grande descoberta em sua área de pesquisa e escrever um artigo em português. Se não conseguir publicar sua descoberta ou invenção em alguma revista ou jornal científico de língua inglesa, é provável que o resto do mundo nunca fique sabendo. Quem quiser promover uma campanha em escala mundial por meio da Internet também terá de fazer isso em inglês, para que um internauta em Cingapura, na Grécia ou no Paquistão consiga entender do que se trata e se engajar, se lhe parecer conveniente.

     Ao se lançarem na grande aventura marítima, entre os séculos XV e XVI, os portugueses acabaram se tornando os primeiros europeus a fazer contato com povos de regiões até então desconhecidas na África e na Ásia (e, mais tarde, aqui na América). Esse contato fez com que muitas palavras originárias dessas regiões penetrassem nas grandes línguas da Europa, por meio do português, e que muitas palavras de origem portuguesa entrassem nas línguas africanas e asiáticas. É o caso de banana, que os portugueses aprenderam na África e divulgaram pelo mundo todo, junto com a planta, e de caju, palavra indígena brasileira, que as outras línguas acolheram. É assim que se explica, também, em sentido inverso, que em japonês o pão se chame pan, e que o termo usado para agradecer seja arigatô, derivado do português obrigado. Do português feitiço se formou o francês fétiche, que acabou voltando para nós, com novo significado. O mesmo aconteceu com o português tanque, que os ingleses na Índia usaram para batizar o veículo militar (tank), palavra que também voltou para o português, com sentido diferente. E o que dizer do adjetivo português barroco, que todas as línguas européias tomaram emprestado para designar o grande movimento artístico e literário dos séculos XVII e XVIII? Se naquela época, naqueles países, houvesse uma lei como a que o deputado Aldo Rebelo propõe agora, essas palavras portuguesas (e outras tantas) teriam sido banidas e seus usuários teriam de pagar multas.

     O aportuguesamento de uma palavra ou expressão não se faz por decreto. Ele acompanha o uso que os falantes nativos da língua fazem desses empréstimos lexicais. Muitas vezes, uma palavra estrangeira entra na moda, vigora por algum tempo e depois deixa de ser usada. Que mulher brasileira hoje em dia usa bandô no cabelo? Ou que homem veste um redingote? As palavras deixam de ser usadas quando as coisas que elas designam também deixam de ser usadas. Assim, para impedir a disseminação dos termos ingleses na área da informática, seria preciso impedir a entrada no país dos equipamentos, programas, computadores, enfim, de toda a tecnologia à qual esses termos vêm aplicados. E isso seria impossível, além de insano.

     Por outro lado, uma quantidade enorme de termos que hoje soam perfeitamente naturais para um falante de português de qualquer extrato social foram, num primeiro momento, termos importados que, com o processo lento e gradual de aportuguesamento, se incorporaram de pleno direito no nosso vocabulário mais comum e trivial: boate, clube, balé, boné, hotel, futebol, tricô, crochê, suflê, butique, panqueca, batom, garçom, ruge, judô, ópera, abajur, ioga, túnel, trem, avião, menu, restaurante, debutante, golfe, iate e milhares de outros. Qualquer brasileiro não-escolarizado sabe o que é um carnê, um cupom ou um tíquete. Quando morei no Nordeste, surpreendi-me ao ouvir pessoas iletradas usando as palavras birô (do francês bureau, "escrivaninha") e étagère ("prateleira", em francês). E o que dizer da jangada, verdadeiro símbolo do estado natal do deputado (Alagoas), mas que é uma palavra de origem malaia? Me pergunto também se no partido do deputado Rebelo (partido do qual ele é o líder, palavra inglesa) não haverá reuniões de comitê (palavra francesa)...

     Por isso, não há razão para se opor ao uso dos termos vindos do inglês, sobretudo no campo da informática. Nem há como exercer controle (palavra francesa) sobre todos os detalhes (outra francesa!) do uso da língua e querer impedir assim a suposta avalanche (mais uma!) dos estrangeirismos. Não existe língua pura: o vocabulário de qualquer língua do mundo é o resultado de séculos de intercâmbios com outros povos, outras culturas e, conseqüentemente, outras línguas. E agora que esses intercâmbios são ainda mais intensos e freqüentes, lutar contra os empréstimos lingüísticos é uma luta desde já perdida. Querer uma língua pura é o mesmo que querer uma raça pura, e já sabemos a que tipo de situações trágicas as idéias desse tipo podem levar...

     O uso da língua não precisa de legislação. A língua é um sistema auto-regulador, ela mesma dá conta de suas necessidades. Ela mesma acolhe o que tem serventia e descarta o que é dispensável. E ela é assim porque é falada por seres humanos que querem se fazer entender, interagir, comunicar-se uns com os outros. A língua não precisa ser "defendida", muito menos defendida de seus próprios falantes, que são seus legítimos usuários e devem ter a liberdade de fazer dela o que bem quiserem. Os males da globalização são outros. O uso de termos estrangeiros é uma mera conseqüência, a mais inofensiva delas. Há coisas muito mais urgentes sobre as quais legislar, problemas sociais e econômicos muitíssimo mais graves sobre os quais fazer incidir a força da lei. Quem precisa ser defendido é o professor de português, humilhado continuamente com salários obscenos. Mas a língua... vamos deixar ela solta, ok?

 

    ONDE PESQUISAR SOBRE O ASSUNTO?

 GARCEZ, Lucília Helena do Carmo. Técnicas de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São Paulo: Martins Fontes, 2001 – (Ferramentas)
MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. São Paulo: Atlas, 2000.
PLATÃO, F.S. & FIORIN, J. L. Para entender o texto – leitura e redação – 2ª ed. São Paulo: Ática, 1991.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 21ªed. São Paulo: Cortez, 2000.


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