|
O DEPUTADO E A
LÍNGUA
MARCOS BAGNO -
Publicado no Jornal
de Brasília em 9 de
janeiro de 2000.
O deputado
federal Aldo Rebelo
(PCdoB/SP) deu
entrada na Câmara
dos Deputados num
Projeto de Lei que "Dispõe
sobre a promoção, a
proteção, a defesa e
o uso da língua
portuguesa". A
leitura do texto do
projeto deixa bem
claro que o grande
alvo de ataque do
autor são os
chamados
estrangeirismos,
isto é, termos e
expressões de outras
línguas que estão
sendo cada vez mais
empregados na língua
falada e escrita no
Brasil. Mais
precisamente,
concentra-se nas
palavras de origem
inglesa. O texto
mereceria uma
demorada análise,
que não podemos
fazer aqui. Mas,
antes de tudo, para
definição de
posições, é
importante deixar
claro que esse
projeto já encontrou
um elevado grau
de rejeição por
parte da maioria dos
lingüistas e
pesquisadores
engajados na
investigação dos
fenômenos
lingüísticos do
Brasil. Atenção:
escrevi
lingüistas e
pesquisadores,
isto é, pessoas que
analisam a língua de
acordo com teorias
científicas
consistentes, com
base em coleta de
dados da língua
realmente utilizada
pelos brasileiros,
coleta feita segundo
metodologias
rigorosas, diversas
vezes testadas e
aprovadas. Não
escrevi
gramáticos
tradicionalistas,
muito menos
apresentadores de
programas de
televisão sobre
português certo e
errado, nem tampouco
autores de colunas
de jornal e revista
que dão "dicas" de
"bom" português.
Esses são meros
repetidores de uma
doutrina gramatical
mumificada, repleta
de inconsistências e
incoerências, que
dita regras para uma
"língua" que nenhum
ser humano de carne
e osso fala nem
escreve, e cujo
único efeito
comprovado, do ponto
de vista pedagógico,
é a criação de uma
tremenda insegurança
por parte dos
brasileiros
escolarizados na
hora de se
manifestar oralmente
ou por escrito em
situações mais ou
menos formais, além
de provocar uma
profunda aversão dos
alunos pelo estudo
da língua na escola.
O que mais
surpreende é que
esse projeto, embora
de autoria de um
membro do PCdoB,
reproduz o discurso
mais conservador,
elitista e
reacionário no que
diz respeito à
língua. Basta dizer
que, em sua
justificativa, o
deputado cita como
"um dos nossos
maiores lingüistas"
o professor Napoleão
Mendes de Almeida,
que durante muitas
décadas, até morrer
em 1998, defendia
idéias como: "É
português estropiado
que no Brasil se
fala", idioma que
para ele equivalia a
uma "língua de
cozinheiras, babás,
engraxates,
trombadinhas,
vagabundos,
criminosos". Sua
visão dos fenômenos
lingüísticos era
profundamente
autoritária,
preconceituosa e
toda voltada para o
passado da língua.
Além disso, o título
de "lingüista"
decerto não lhe
agradaria, porque
para ele a ciência
lingüística só
servia para "fixar
inúteis,
pretensiosas e
ridículas
bizantinices".
O projeto
também faz
referência elogiosa
à lei francesa de
1975 sobre os
anglicismos que,
como toda legislação
desse tipo, não teve
nem de longe o
efeito esperado,
sendo, aliás, alvo
de escárnio por
parte dos franceses,
que cada dia mais
recheiam sua fala de
termos oriundos do
inglês. É bom
lembrar que essa lei
francesa foi
elaborada por um
deputado da
direita...
A língua tem
esta qualidade
maravilhosa de ser,
ao mesmo tempo, um
patrimônio público e
um bem individual.
Se o projeto do
deputado Rebelo se
limitasse a (tentar)
conter o uso de
estrangeirismos nas
manifestações
lingüísticas
oficiais, seria
possível talvez
apoiá-lo. Afinal, se
a Constituição diz
que o português é a
língua oficial do
Brasil, tudo aquilo
que tivesse caráter
oficial
deveria, em
princípio, vir
redigido
exclusivamente em
português. Assim, é
bastante razoável
que o deputado
critique a expressão
"Personal Banking"
estampada nos caixas
eletrônicos do Banco
do Brasil espalhados
em todo o território
nacional (embora
esse banco não seja
rigorosamente
oficial). Mas
mesmo aí seria
difícil delimitar o
que é
exclusivamente
português — a
palavra cheque,
por exemplo, que
parece tão nossa, é
inglês "puro",
inclusive na
grafia... Haveria
sucesso em
substituí-la por um
"equivalente" em
nossa língua?
No que é
oficial, pode até
ser. No entanto,
querer aplicar
multas ao cidadão
que se servir de
expressões
estrangeiras é de um
profundo
autoritarismo só
comparável ao da
Igreja católica, que
sempre quis
controlar o
pensamento de
seus fiéis por meio
da confissão de
pecados nem sequer
cometidos, apenas
imaginados, e da
imposição de
penitências. A
língua é usada,
antes de mais nada,
para a comunicação
do indivíduo consigo
mesmo, é o veículo
do pensamento (ou a
matéria mesma de que
ele se compõe), e as
relações entre
pensamento e
linguagem
despertaram, ao
longo deste século,
o interesse de
inúmeros lingüistas,
psicólogos,
antropólogos,
biólogos etc. A quem
confessarei meu
pecado por ter
pensado em comer num
self-service?
Ou por ficar
ansioso, durante uma
palestra, pelo
coffee-break? Ou
por gostar de viajar
de van?
A língua que
cada um de nós fala
é elemento essencial
de nossa própria
identidade
individual, daquilo
que somos. Querer
legislar sobre o
uso individual
da língua, além de
autoritário, por
querer interferir
naquilo que a pessoa
é como ser
humano, é
perfeitamente
inútil, já que não
se pode legislar
sobre o que uma
pessoa vai ou não
pensar. É querer
transformar em crime
o que a pessoa é
e o que ela pensa.
A luta contra
os estrangeirismos é
uma bandeira que, de
tão velha, já está
mais do que
esfarrapada. No
final do século
passado, por
exemplo, o filólogo
português Cândido de
Figueiredo
esbravejava contra o
"enxerto da
francesia", contra a
"malária"
representada pela
"invasão" de termos
e expressões de
origem francesa no
português, prevendo,
como se faz hoje, a
ruína e até o
possível
desaparecimento da
língua portuguesa!
Apesar da profecia
apocalíptica dele e
de outros, o
português continuou
vivo e dinâmico,
usado por cada vez
mais gente, sendo a
sexta língua mais
falada no mundo
todo. Primeiro foi o
francês, agora é o
inglês. Mudou a
língua "invasora",
mas o discurso
purista permanece o
mesmo.
O projeto diz
que "nosso homem do
campo" não
compreenderá o termo
printar,
porque é um verbo
formado com base no
inglês. Mas será que
esse mesmo camponês
entenderia o verbo
imprimir? A
compreensão ou não
de uma palavra nada
tem a ver com sua
origem, com sua
etimologia, com a
língua de onde ela
procede: tem a ver
com a coisa ou o
fato que ela
designa, com o mundo
de referências ao
qual ela remete. Nem
o brasileiro mais
culto e
bem-informado poderá
entender termos que
não façam parte do
seu universo de
referências. Só quem
conhece o mundo dos
navios a vela, por
exemplo, saberá o
que é o estai
da mezena do
joanete, a
sobregatinha, a
giba, a
ostaga e a
draiva, entre
outros termos
igualmente poéticos
e estranhos, mas que
são português
"puro". Para muita
gente culta, eles
soam mais
estrangeiros do que
drive, reset,
delete, insert
ou download...
O nosso camponês,
por outro lado, se
for ligado no
esporte mais popular
do país, saberá
perfeitamente o que
é um pênalti,
um gol e um
drible,
termos de origem
inglesa que ficaram
quase inalterados no
português do Brasil,
bem como o nome do
próprio futebol.
Outra coisa
importante é lembrar
que os
estrangeirismos não
alteram as
estruturas da
língua, a sua
gramática. Por isso
não são capazes de
destruí-la, como
juram os
conservadores. Os
estrangeirismos
contribuem apenas no
nível mais
superficial da
língua, que é o
léxico. Um exemplo:
"O office-boy
flertava com a
baby-sitter no hall
do shopping-center".
Embora os
substantivos sejam
todos de origem
inglesa (e a raiz do
verbo também), a
sintaxe e a
morfologia são
perfeitamente
portuguesas, como se
verifica pela flexão
do verbo, pelas
preposições e pelos
artigos. A ordem das
palavras no
enunciado — primeiro
o sujeito, depois o
verbo, depois o
objeto e por fim os
adjuntos adverbiais
— corresponde
integralmente à
ordem normal da
sintaxe portuguesa.
A história,
como em muitos
outros campos, nos
dá boas lições sobre
os fenômenos
relativos à língua.
É curioso pensar,
por exemplo, que os
livros bíblicos que
compõem o Novo
Testamento foram
escritos em grego,
embora seus autores
fossem todos judeus
que viviam em terras
sob o domínio
político de Roma.
Por que não
escreveram os
evangelhos, as
epístolas e o
Apocalipse em
hebraico, sua língua
tradicional, ou em
aramaico, sua língua
familiar, ou ainda
em latim, língua
oficial do Império a
que estavam
submetidos? Porque,
naquela época, o
grego era a grande
língua de cultura:
quem quisesse
transmitir uma
mensagem capaz de
alcançar o maior
número possível de
ouvintes e leitores
teria de fazer isso
em grego. É o mesmo
que acontece hoje em
dia com o inglês.
Não adianta um
importante cientista
brasileiro fazer uma
grande descoberta em
sua área de pesquisa
e escrever um artigo
em português. Se não
conseguir publicar
sua descoberta ou
invenção em alguma
revista ou jornal
científico de língua
inglesa, é provável
que o resto do mundo
nunca fique sabendo.
Quem quiser promover
uma campanha em
escala mundial por
meio da Internet
também terá de fazer
isso em inglês, para
que um internauta em
Cingapura, na Grécia
ou no Paquistão
consiga entender do
que se trata e se
engajar, se lhe
parecer conveniente.
Ao se lançarem
na grande aventura
marítima, entre os
séculos XV e XVI, os
portugueses acabaram
se tornando os
primeiros europeus a
fazer contato com
povos de regiões até
então desconhecidas
na África e na Ásia
(e, mais tarde, aqui
na América). Esse
contato fez com que
muitas palavras
originárias dessas
regiões penetrassem
nas grandes línguas
da Europa, por meio
do português, e que
muitas palavras de
origem portuguesa
entrassem nas
línguas africanas e
asiáticas. É o caso
de banana,
que os portugueses
aprenderam na África
e divulgaram pelo
mundo todo, junto
com a planta, e de
caju, palavra
indígena brasileira,
que as outras
línguas acolheram. É
assim que se
explica, também, em
sentido inverso, que
em japonês o pão
se chame pan,
e que o termo usado
para agradecer seja
arigatô,
derivado do
português
obrigado. Do
português feitiço
se formou o francês
fétiche, que
acabou voltando para
nós, com novo
significado. O mesmo
aconteceu com o
português tanque,
que os ingleses na
Índia usaram para
batizar o veículo
militar (tank),
palavra que também
voltou para o
português, com
sentido diferente. E
o que dizer do
adjetivo português
barroco, que
todas as línguas
européias tomaram
emprestado para
designar o grande
movimento artístico
e literário dos
séculos XVII e
XVIII? Se naquela
época, naqueles
países, houvesse uma
lei como a que o
deputado Aldo Rebelo
propõe agora, essas
palavras portuguesas
(e outras tantas)
teriam sido banidas
e seus usuários
teriam de pagar
multas.
O
aportuguesamento de
uma palavra ou
expressão não se faz
por decreto. Ele
acompanha o uso que
os falantes nativos
da língua fazem
desses empréstimos
lexicais. Muitas
vezes, uma palavra
estrangeira entra na
moda, vigora por
algum tempo e depois
deixa de ser usada.
Que mulher
brasileira hoje em
dia usa bandô
no cabelo? Ou que
homem veste um
redingote? As
palavras deixam de
ser usadas quando as
coisas que elas
designam também
deixam de ser
usadas. Assim, para
impedir a
disseminação dos
termos ingleses na
área da informática,
seria preciso
impedir a entrada no
país dos
equipamentos,
programas,
computadores, enfim,
de toda a tecnologia
à qual esses termos
vêm aplicados. E
isso seria
impossível, além de
insano.
Por outro lado,
uma quantidade
enorme de termos que
hoje soam
perfeitamente
naturais para um
falante de português
de qualquer extrato
social foram, num
primeiro momento,
termos importados
que, com o processo
lento e gradual de
aportuguesamento, se
incorporaram de
pleno direito no
nosso vocabulário
mais comum e
trivial: boate,
clube, balé, boné,
hotel, futebol,
tricô, crochê,
suflê, butique,
panqueca, batom,
garçom, ruge, judô,
ópera, abajur, ioga,
túnel, trem, avião,
menu, restaurante,
debutante, golfe,
iate e milhares
de outros. Qualquer
brasileiro
não-escolarizado
sabe o que é um
carnê, um
cupom ou um
tíquete. Quando
morei no Nordeste,
surpreendi-me ao
ouvir pessoas
iletradas usando as
palavras birô
(do francês
bureau,
"escrivaninha") e
étagère
("prateleira", em
francês). E o
que dizer da
jangada,
verdadeiro símbolo
do estado natal do
deputado (Alagoas),
mas que é uma
palavra de origem
malaia? Me
pergunto também se
no partido do
deputado Rebelo
(partido do qual ele
é o líder,
palavra inglesa) não
haverá reuniões de
comitê
(palavra
francesa)...
Por isso, não
há razão para se
opor ao uso dos
termos vindos do
inglês, sobretudo no
campo da
informática. Nem há
como exercer
controle (palavra
francesa) sobre
todos os detalhes
(outra francesa!) do
uso da língua e
querer impedir assim
a suposta avalanche
(mais uma!) dos
estrangeirismos. Não
existe língua pura:
o vocabulário de
qualquer língua do
mundo é o resultado
de séculos de
intercâmbios com
outros povos, outras
culturas e,
conseqüentemente,
outras línguas. E
agora que esses
intercâmbios são
ainda mais intensos
e freqüentes, lutar
contra os
empréstimos
lingüísticos é uma
luta desde já
perdida. Querer uma
língua pura é o
mesmo que querer uma
raça pura, e já
sabemos a que tipo
de situações
trágicas as idéias
desse tipo podem
levar...
O uso da língua
não precisa de
legislação. A língua
é um sistema
auto-regulador, ela
mesma dá conta de
suas necessidades.
Ela mesma acolhe o
que tem serventia e
descarta o que é
dispensável. E ela é
assim porque é
falada por seres
humanos que querem
se fazer entender,
interagir,
comunicar-se uns com
os outros. A língua
não precisa ser
"defendida", muito
menos defendida de
seus próprios
falantes, que são
seus legítimos
usuários e devem ter
a liberdade de fazer
dela o que bem
quiserem. Os males
da globalização são
outros. O uso de
termos estrangeiros
é uma mera
conseqüência, a mais
inofensiva delas. Há
coisas muito mais
urgentes sobre as
quais legislar,
problemas sociais e
econômicos
muitíssimo mais
graves sobre os
quais fazer incidir
a força da lei. Quem
precisa ser
defendido é o
professor de
português, humilhado
continuamente com
salários obscenos.
Mas a língua...
vamos deixar ela
solta, ok? |